Mãos Vazias
Há onze meses, um silêncio se instalou no meu peito. Não um silêncio leve, desses que repousam. Foi um silêncio áspero, cheio de farpas, que arranha quando tento respirar fundo.
Não escolhi a dor como companheira, nem a elegi como fonte de inspiração. Eu
preferia falar de flores, de manhãs que começam com gargalhadas, de mãos que se
procuram no escuro, de amores que se celebram no dia comum. Preferia escrever
sobre vida, não sobre ausência.
Mas o universo, com sua
estranha lógica, te levou.
E aqui fiquei eu — com as mãos abertas, vazias.
Há dias em que estendo os dedos no ar, como se pudesse tocar o contorno do teu
rosto. Em outros, me surpreendo tentando te encaixar no espaço do travesseiro.
Nenhum gesto traz de volta o que se foi, mas todos eles me lembram que um dia
existiu: tua presença, teu riso, teu corpo ao lado do meu.
É curioso quando a vida
arranca alguém de nós, ficamos cheios e vazios ao mesmo tempo. Cheios de
lembranças que queimam e confortam. Vazios de futuro, porque ele já não cabe
nos planos que sonhei contigo.
Escrevo não porque a dor me move, mas porque ela insiste em se sentar ao meu
lado, e ignorá-la seria também mentir para mim mesma.
Talvez um dia eu volte a
escrever apenas de alegria. Talvez volte a celebrar o amor sem a sombra da
ausência. Mas hoje, ainda hoje, é a saudade que me dita o ritmo.
E mesmo assim, ainda que doa, é também ela que me prova que amei — e que
continuo amando.
Silvia Marchiori Buss
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