Cartas na Manga

 Dona Leonor tinha o dom de nascer em pé de vento. Nunca ficava parada, nunca deixava um nó por desfazer — ou por dar em alguém. A vida, para ela, era como uma partida interminável de truco: sempre sobrava uma carta escondida na manga, uma piscadela atravessada no tempo certo, uma mentira despretensiosa que virava verdade antes de qualquer desconfiança.

Aos olhos do bairro, era viúva. Aos olhos do cartório, solteira. No fundo das gavetas, guardava alianças diferentes, cada uma com um nome gravado — nenhuma coincidia com o seu. Quando alguém tentava confrontá-la, ela sorria com a calma de quem conhece as falhas humanas melhor do que os manuais de etiqueta:
— Ora, meu filho, todos têm direito a uma coleção. Uns colecionam selos, outros moedas. Eu, maridos.

Na padaria, comprava pão “fiado” como quem fazia caridade ao padeiro. Convencia-o de que estava apenas testando sua paciência cristã. No açougue, jurava que carne vermelha fazia mal ao fígado e só levava frango, “promessa de santo”, sem pagar. Se algum vizinho ousava comentar, ela contava uma história tão convincente de doenças raras, primos distantes e parentes de inventário que, no fim, o falatório virava compaixão.

A esperteza dela era tamanha que ninguém sabia se ria ou se chorava. Um dia, ganhou uma rifa de uma bicicleta que não comprara. Outro, herdou a chave de um sítio em Candelária sem nunca ter pisado na cidade. A vida lhe entregava presentes como se fosse cúmplice.

Mas era no jogo das relações que Leonor brilhava. Nunca se declarava culpada, nunca inocente. Preferia deixar os outros na dúvida, pois na dúvida morava o poder. Quando um rapaz desconfiado a acusou de passar-lhe uma nota falsa, ela respondeu com olhar ofendido:
— Falso? Quem é falso aqui é o amor que você jurou à sua noiva e que ontem mesmo vi desfazendo no portão da esquina.
O rapaz ficou tão sem jeito que esqueceu a nota, a noiva e a acusação.

Tragicômico era vê-la envelhecer sem envelhecer de fato. O corpo pedia descanso, mas a mente seguia inventando caminhos de se safar. O médico lhe receitou repouso e calmantes, mas ela preferiu vender os comprimidos à vizinhança como se fossem “vitaminas de rejuvenescimento”. E quem tomava jurava mesmo sentir-se melhor.

Um dia, contudo, Leonor se pegou diante do espelho com uma carta que não soube jogar. A pele enrugada denunciava que o tempo não aceitava suborno. A esperteza, que sempre lhe rendera plateias incrédulas, agora lhe devolvia apenas o reflexo cansado de si mesma. O riso vinha, mas vinha torto; a malícia ainda saltava, mas tropeçava na memória.

E foi assim, entre um truque e outro, que Dona Leonor percebeu: talvez sua maior cartada fosse justamente essa — ter enganado a própria vida o suficiente para durar tanto.

Ao fechar a janela naquela noite, soltou um suspiro quase cúmplice, como quem dá a mão ao destino:
— Pois bem, meu velho… já que tu não me apanhaste até agora, vamos ver qual de nós tem a carta mais alta.

E dormiu sorrindo, sem nunca revelar se a última carta continuava guardada na manga ou se, finalmente, tinha sido jogada.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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