Saudades do Que Ainda Não Foi

Ela tinha apenas oito anos, mas já conhecia um medo que muitos adultos passavam a vida inteira tentando esconder: o medo de crescer.

Naquela idade em que os vestidos rodados ainda pareciam abrigar mundos inteiros, em que o cheiro de pão recém-saído do forno era a maior segurança da vida, ela já sofria pelo que ainda não tinha acontecido. Não queria crescer. Não suportava a ideia de que, crescendo, seus pais envelheceriam. E se o tempo, esse ladrão silencioso, os levasse antes que ela tivesse decorado todos os seus gestos?

Às vezes, chorava escondida, debruçada na janela, olhando as estrelas como se fossem lanternas que guardassem segredos do futuro. E perguntava em silêncio:
Será que crescer é perder?

Na manhã seguinte, fazia pequenas tentativas de enganar o mundo. Parava os ponteiros do despertador da sala, como se isso pudesse frear o tempo inteiro da casa. Caminhava nas pontas dos pés para que o corpo não se esticasse depressa demais. Guardava suas bonecas no fundo do armário, não porque quisesse esquecê-las, mas porque temia que, a qualquer instante, lhe dissessem que já era grande demais para brincar.
E sofria antes da vida pedir que sofresse. Sofria como quem já sente saudade de uma festa antes que a música termine.

Um dia, deitada no colo da mãe, perguntou:
— Mãe, quando eu crescer, você vai desaparecer?

A mãe não riu. Sorriu apenas com ternura, acariciando lhe os cabelos como quem escreve uma promessa invisível na pele da filha.
— Não, meu amor. Quando você crescer, eu vou estar em tudo o que você fizer de bonito. Vou estar no jeito que você vai rir, no pão que você vai comer, no abraço que você vai dar. E, quando eu não estiver mais aqui, vou continuar dentro de você. Porque amor não envelhece, amor não vai embora.

A menina quis acreditar. E por um instante acreditou. Mas, naquela mesma noite, deitada na cama, sonhou um sonho que a fez acordar com o coração aos pulos.

Sonhou que caminhava por um jardim coberto de névoa, onde flores se abriam e fechavam como se respirassem. Ao fundo, um rio corria em silêncio, mas não havia barulho de água — apenas o som de um relógio invisível, marcando horas que não pertenciam a lugar nenhum.
Ela via seus pais à distância, acenando com as mãos, mas cada passo que dava para se aproximar parecia afastá-los ainda mais. Quando olhou para baixo, percebeu que o chão sob seus pés se desfazia em areia. Tentou gritar, mas sua voz era um sopro.
E então se viu diante de uma porta escura, enorme, feita de sombra. Ao tocá-la, uma certeza atravessou seu corpo pequeno: era a porta da morte. Do outro lado não havia medo, mas um vazio profundo.

Acordou com lágrimas molhando o travesseiro. E não contou a ninguém. Guardou aquele sonho como quem guarda um segredo impossível de compartilhar. Talvez porque já soubesse, mesmo aos oito anos, que era o próprio tempo sussurrando em sua alma.

Na manhã seguinte, abraçou a mãe mais forte do que de costume, como se quisesse prender nela toda a vida.
Chorava não pela dor que já existia, mas pela dor que ainda não tinha chegado.

Talvez, no fundo, já soubesse que crescer é inevitável, assim como é inevitável aprender a carregar dentro de si os que amamos, mesmo depois que atravessam portas de sombra. Ainda assim, não conseguia deixar de sofrer pelo amanhã.

Porque algumas crianças — as mais sensíveis, as mais delicadas — já nascem sabendo da finitude.
E vivem com saudades do que ainda não foi.

 

Silvia Marchiori Buss

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