1 - O Homem do Chapéu Preto da série Caderno de Lausanne

Os sinos da Catedral de Lausanne, erguidos desde o século XIII, bateram dez vezes. Cada badalada soou como um coração antigo que não cansa de pulsar, ecoando pelas pedras e descendo às ruas estreitas, onde a noite se estendia em silêncio.

Então, de repente, ele surgiu. Uma figura solitária no campanário, recortada contra a lua cheia, como se tivesse saído de um sonho medieval para lembrar ao mundo que as horas não passam em vão. Sua voz atravessou o vento:
C’est le guet! Il a sonné dix… il a sonné dix!

Era o vigia noturno. O guardião da cidade que adormecia. O homem do chapéu preto de feltro, que mantém viva uma tradição de séculos. Renato Hauster — nome que soa como pedra gravada, nome que carrega a honra de ser o último elo entre o passado e o presente.

Sua função nasceu em tempos de medo, quando incêndios eram monstros que devoravam cidades inteiras. O vigia era os olhos da noite, o ouvido atento que protegia contra perigos invisíveis. Foi ele quem aprendeu a cantar as horas para que o tempo não se perdesse na escuridão.
Com o passar dos séculos, vieram governos, modernidades, relógios precisos, cronômetros infalíveis, estações de rádio anunciando os segundos exatos. Tentaram decretar o fim dessa voz que atravessava madrugadas, julgando-a inútil, folclórica, apenas um eco de outras eras.

Mas a população resistiu. A cidade ergueu-se em defesa de seu guardião. Porque entendia que não era apenas a hora que ele anunciava — era a própria alma da cidade que se mantinha de pé, lembrando que Lausanne não é feita só de progresso, mas também de memória.
Expulsar o vigia seria como apagar a lua das noites ou silenciar os sinos da catedral. Não se tratava de marcar minutos, mas de manter vivo o canto ancestral que dizia: “o tempo passa, mas nós continuamos juntos a atravessá-lo”.

E assim, o vigia permaneceu. O cantor das horas sobreviveu às tentativas de silêncio e, com seu grito que atravessa gerações, alcançou a era tecnológica — este país da hora certa, onde trens partem sem atraso e relógios marcam a pontualidade como religião.
Ele é a contradição necessária: enquanto telas brilham no bolso de cada um e satélites regulam fuso e precisão, o homem do chapéu preto ainda sobe as escadas da catedral para dizer em voz alta aquilo que todos já sabem no pulso, mas precisam ouvir na alma.

Eu sabia dessa lenda, mas só ao vê-lo compreendi sua força. A cada hora, seu grito não é apenas anúncio: é testemunho. Ele não marca apenas o tempo — ele o guarda. Vigia as horas para que não se dissolvam na pressa líquida do mundo moderno.
E foi então que percebi: eu também vigio. Não uma cidade, mas uma memória. Vigio um amor que o tempo não levou, ainda que tenha levado o corpo. Enquanto o homem do chapéu preto proclama do alto da catedral que a hora passou, eu, em silêncio, proclamo dentro de mim que o amor continua.

Ele guarda Lausanne. Eu guardo você.

E assim, na noite mais linda de lua cheia, entendi o sentido da vigília: há sempre alguém que chama, que nomeia a hora, que impede que ela caia no esquecimento. Enquanto o vigia gritou “il a sonné dix”, eu respondi em pensamento: “eu também velo, eu também guardo”.

A cidade dormia. Mas nós dois — o homem do chapéu preto e eu — permanecíamos acordados, testemunhas do tempo, guardiões de ausências e presenças.

 

Silvia Marchiori Buss

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