Tragédia e Comédia

A vida, se a gente parar para pensar, nada mais é do que uma peça encenada em palcos improvisados. Umas vezes o riso é inevitável, outras, o choro não pede licença. Tragédias que parecem cômicas. Comédias que se revelam trágicas.

Há quem chore lágrimas sentidas porque quebrou uma unha na véspera de uma festa. O drama se instala como se fosse um acidente nuclear: como sair em público com a mão mutilada? O salão não tinha vaga, a manicure parecia cúmplice do destino, e a porcelana quebrou no ponto exato da vaidade. Tragédia! Mas é inevitável rir de tanto exagero, como se o mundo fosse desmoronar entre esmaltes e acetona.

Há também quem viva a tragédia do espelho: o cabeleireiro, vilão da noite, ousou cortar um centímetro a mais do que o combinado. Um centímetro, apenas, mas suficiente para transformar o dia em luto. O cabelo cresce, sim, mas não na velocidade do desespero. E enquanto isso, fotos de perfil precisam ser revistas, festas adiadas e sorrisos sustentados sob o peso de grampos e sprays.

E não falemos da empregada que faltou numa segunda-feira. Ah, essa sim é uma catástrofe em tom de ópera: o chão clama por uma vassoura, as camas desfeitas parecem escombros de guerra, e a dona da casa sente-se personagem de uma novela mexicana.

Essas são as tragédias que fazem rir, as comédias involuntárias que habitam os caprichos humanos. Mas a vida, de vez em quando, mostra o outro lado da moeda sem pedir aplausos: a doença que chega sem convite, silenciosa, devastando o corpo de quem nunca se preocupou com uma unha quebrada; a morte de crianças e jovens, onde o palco não comporta gargalhadas, apenas o silêncio pesado da ausência; os desastres naturais, quando a terra treme, a água invade, o vento arranca telhados e ninguém se lembra do cabeleireiro que cortou demais.

E é aí que a comédia vira tragédia, e a tragédia, por vezes, se veste de comédia. Porque até nos velórios já houve quem tropeçasse, quem dissesse uma palavra atravessada, e o riso se impôs como forma de resistir. E até nas festas mais alegres, entre champanhes e brilhos, há sempre um olhar que se perde na saudade de alguém que não está mais.

Talvez seja essa a lição não ensinada nos livros: vivemos nesse entremeio. Rimos quando deveríamos chorar, choramos por coisas que, um dia, serão lembradas com graça. A vida é um teatro de improviso — trágico-cômico, cômico-trágico. E é exatamente aí, nesse desajuste, que ela se torna tão profundamente humana.

 

Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As Bruxas Estão Soltas...

Não Quero Esquecer do Teu Abraço

As Gavetas da Mente e Suas Chaves Específicas (Crônica)