As 4 Verdades de Amélia
Amélia nunca se considerou corajosa. Não era dessas mulheres que falam alto ou que impressionam pela ousadia. Mas havia nela um território secreto, feito de quatro verdades guardadas como pedras preciosas costuradas no forro de um vestido. Não mostrava a ninguém. Preferia carregá-las no silêncio, porque sabia que eram, ao mesmo tempo, seu abrigo e sua condenação.
A primeira verdade
Às vezes, quando estava
sozinha, abria a gaveta da cômoda e tirava de lá uma fotografia antiga. O rosto
dele sorria ainda jovem, como se o tempo tivesse congelado antes da despedida.
Amélia olhava a imagem como quem acaricia uma ferida que já não sangra, mas
nunca cicatriza. Poderia ter refeito a vida, poderia ter emprestado seu nome a
outro amor, mas preferiu deixá-lo fechado como um relicário.
Amava-o não com a urgência da juventude, mas com a persistência de um fogo que
nunca se apaga — aquele que arde sob as cinzas, invisível, mas vivo. Aos
outros, oferecia sorrisos inteiros; a ele, dedicava o silêncio.
A segunda verdade
Todas as manhãs, ao abrir a
janela da cozinha, o sol entrava atravessando o vapor do café recém passado.
Era nesse instante que Amélia mais sonhava. Imaginava-se descendo de um trem em
uma cidade estrangeira, onde ninguém a chamasse pelo nome, onde pudesse
caminhar pelas ruas como uma mulher inventada. Via-se atravessando praças
desconhecidas, entrando em cafés onde ninguém perguntaria de onde vinha.
Mas nunca foi. Sempre havia raízes a segurar seus pés: filhos, promessas,
obrigações que não se largam sem dor. Ficou. E, no entanto, a saudade de uma
vida não vivida a acompanhou até o fim, como um perfume que se sente no ar mas
nunca se descobre de onde vem.
A terceira verdade
O espelho era seu inimigo
íntimo. Passava os dedos pela pele e encontrava marcas que não autorizara. Cada
ruga lhe parecia uma anotação insolente feita pelo tempo em sua própria carne.
Debatia-se em silêncio, como quem discute com uma carta escrita em idioma
estranho, sem entender por que não lhe fora dado o direito de permanecer igual.
Apesar disso, Amélia saía de casa ereta. Vestia-se com cuidado, ajeitava os
cabelos, perfumava-se. Caminhava pelas ruas como quem desafia os ponteiros de
um relógio, altiva, determinada a enganar a passagem das horas com a dignidade
de seu porte. Os vizinhos a viam sempre elegante, como se o tempo tivesse
poupado sua superfície, sem saber da batalha que ela travava todas as manhãs
diante do espelho.
A quarta verdade
Era a mais íntima e também
a mais luminosa. Amélia sabia que, no fundo, era feliz. Não a felicidade
espalhafatosa das fotografias ou das festas, mas aquela que se encontra nas
coisas pequenas. Um café forte que perfumava a manhã. O riso de um neto que corria
pela sala como se trouxesse nas mãos um pedaço de futuro. O cuidado com as
plantas, regadas como quem faz orações diárias.
Amélia sabia que não teria tudo — e não precisava. Havia aprendido a encontrar
grandeza na simplicidade, a reconhecer no pouco o espanto do imenso.
E assim seguiu sua vida,
guardando as quatro verdades como quem carrega um mapa secreto: nunca revelado,
mas sempre guia. Ninguém as conheceu por inteiro. Mas todos que passaram por
ela sentiram sua força silenciosa, como se cada gesto fosse tecido por uma
sabedoria discreta, dessas que não precisam ser ditas para permanecerem.
Silvia Marchiori Buss
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