A Virgula da Vida

A vida é uma vírgula.

Um pequeno intervalo dentro da imensidão de um texto cósmico que não fomos nós quem escreveu. E, no entanto, nos comportamos como se fôssemos os autores do universo — arrogantes, prepotentes, convencidos de que somos a última palavra, quando, na verdade, não passamos de uma pausa, um respiro breve.

Entre milhões de espécies que respiram — e tantas outras que sequer precisam de ar para existir — somos aqueles que se autodenominam “seres pensantes”. Criamos, mas também destruímos. Construímos mundos de vidro e ferro e, com a mesma rapidez, devoramos florestas, rios, céus. Somos paradoxos ambulantes: inventamos o poema e a bomba, a música e a guerra.

Ontem, diante de um pôr do sol que dissolvia o dia no espelho líquido de um lago, percebi o tamanho do meu próprio absurdo. A boca me traiu, e eu disse, encantada: “parece um quadro”. Que soberba! Como se a obra-prima de milhões de anos de cosmos pudesse ser comparada a um pedaço de tela pintado por mãos humanas, por mais talentosas que fossem. Não era a natureza que imitava a arte — era a arte, sempre, que tenta desesperadamente alcançar a natureza.

E ali estava eu, tão pequena diante do espetáculo, mas ainda assim me achando autorizada a colocar a beleza em moldura. Esse é o nosso vício: inverter a ordem da vida. Subvertemos a cadeia que sustenta o planeta, como se fôssemos o topo de algo que nunca teve hierarquia — apenas fluxo.

A sensibilidade me ardeu por dentro. Arrepiei-me com as cores, com o silêncio, com a delicadeza de flores que parecem artificiais de tão perfeitas e, no entanto, são pura matéria orgânica, puro sopro vivo. Naquele instante, compreendi: precisamos, às vezes, andar sós para reconhecer nossa pequenez. Para aceitar que somos apenas mais um corpo respirando oxigênio, mais uma vida que caminha, tropeça e se apaga.

E, ainda assim, nos achamos donos. Donos do tempo, da terra, dos mares. Donos até da beleza, que ousamos comparar a um quadro qualquer.

A vida é uma vírgula. Breve. Frágil. E talvez nosso maior ato de humildade seja aprender a nos colocar no texto como tal — uma pausa discreta, entre tantas outras, sem nunca esquecer que não somos nós quem escreve o livro do universo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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