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Mostrando postagens de dezembro, 2025

2026

  2026   Ninguém entra em um ano novo ileso. Atravessa-se. Com o corpo inteiro — e com tudo o que ele já aprendeu a suportar. Chamam 2026 de ano um. Como se fosse começo. Mas talvez seja continuidade em outro tom. Um ano que não pede juventude, pede densidade. Mudança não é gesto leve. Não é ímpeto. Não é promessa. Só muda quem sustenta o peso do que viveu. Quem aprendeu a andar com o que perdeu sem transformar isso em desculpa. Há coragem nisso — uma coragem silenciosa, que não se anuncia. Carregamos números. Muitos. Anos, datas, marcas invisíveis no corpo e na memória. E há quem tente se esconder neles, como se o tempo fosse álibi. Como se dizer “já passou” bastasse. Mas nesse tanto de número que se carrega mora também outra coisa: sabedoria. Não a sabedoria pronta, organizada — mas a que sabe esperar, a que reconhece limites, a que não confunde pressa com vida. Seria fácil — e talvez covarde — entregar às mãos jovens a tarefa inteira de mudar o mundo. Como...

Nossas Noites

Eles se encontravam quase sempre no mesmo bar. Não porque fosse especial — não era. Um balcão gasto, luz amarelada demais para embelezar alguém, música baixa que ninguém escutava direito. Um bar qualquer, desses que ficam abertos quando a cidade já desistiu do dia. Ela costumava chegar depois do plantão. Enfermeira. O corpo ainda atento, como se pudesse ser chamado a qualquer momento. Trazia nos ombros o cansaço de quem passou horas medindo dores alheias. O cabelo preso sem cuidado, a pele limpa, o olhar firme. Havia nela uma concentração silenciosa, uma espécie de calma alerta que chamava atenção sem pedir. Ele geralmente já estava ali. Professor. O tipo que passa o dia explicando o mundo e à noite prefere observá-lo em silêncio. Bebia devagar. Tinha gestos contidos, postura reta demais para um bar tão comum. As mãos grandes descansavam sobre o copo como se segurassem um pensamento. Falava pouco. Sorria menos ainda. Não se buscavam. Se reconheciam. Às vezes o encontro começa...

Damos Graças A Deus...Por Quê

  Damos graças a Deus não porque tudo deu certo. Nem porque a vida foi justa. Nem porque houve recompensa. Damos graças no meio. Quando nada se organiza. Quando não há resposta nem consolo. Damos graças depois de perder. Depois de atravessar dias que não pediam coragem, apenas continuação. Depois de acordar sem vontade e se levantar assim mesmo. Não é celebração. É constatação. O corpo seguiu. Mesmo pesado. Mesmo atrasado em relação à própria dor. Damos graças não pelo que foi salvo, mas pelo que não nos quebrou de vez. Porque houve amor — e isso deixou marcas. Porque houve vida — e ela não saiu limpa. A gratidão não vem alta. Não vem inteira. Vem quase sem voz. Às vezes é só um pensamento curto, atravessado no meio do dia. Uma frase que não se desenvolve. Que não pede aplauso nem explicação. Damos graças a Deus como quem não tem outra palavra para dizer diante do que ficou.   Silvia Marchiori Buss         ...

Num Domingo Qualquer...você apareceu

Num domingo qualquer, desses que não anunciam nada além do próprio tempo, você apareceu. A manhã tinha cheiro de café requentado e pão esquecido na mesa. O rádio falava baixo, como se soubesse que domingo não gosta de excesso. A casa se movia devagar, em economia de gestos: passos curtos, pensamentos soltos, o dia inteiro ainda sem forma. Eu não esperava. Domingo também não pede espera. Ele simplesmente acontece. Você entrou sem ruído. Nenhuma porta bateu, nenhuma frase marcou presença. Foi como se já estivesse ali antes, apenas esperando ser notado. Não trouxe novidades nem perguntas. Trouxe o corpo inteiro, essa coisa concreta que ocupa espaço e muda o ar ao redor. Sentou perto, não perto demais. A distância exata para que o silêncio não precisasse se explicar. Falamos pouco. Domingo não gosta de discursos. As palavras eram simples, quase domésticas: o tempo, uma lembrança atravessada, um detalhe pequeno que não merecia importância — e por isso mesmo ficou. Entre uma frase e outra, o...

Olhares Distantes

Eles nunca se olharam de verdade. O que havia era um ajuste involuntário do rosto, um desvio calculado, como quem reconhece a presença de algo sensível demais para ser tocado. Encontravam-se no mesmo vagão, quase sempre no fim da tarde, quando o dia já vinha gasto e as pessoas pareciam menos inteiras. Ela se sentava perto da porta. Não por pressa, mas por hábito. O corpo ligeiramente inclinado para frente, como se estivesse sempre prestes a levantar. As mãos seguravam a bolsa com firmeza excessiva, gesto antigo, aprendido em tempos em que era preciso vigiar o que se tinha — ou o que se perdia. Ele ficava de pé, apoiado no metal frio, o olhar pousado em qualquer ponto que não fosse gente. Observava reflexos: o vidro, o próprio rosto recortado em outros rostos, a paisagem passando em blocos desordenados. Tinha um modo de existir sem ocupar espaço, como se pedisse desculpas por estar ali. Às vezes, o vagão freava bruscamente. O corpo dela avançava um pouco, o dele se reequilibrava...

Para...

  Depois que você partiu, me sinto amputada. Não é uma metáfora dramática — é física. Falta um apoio invisível, algo que sustentava o corpo sem que eu percebesse. Ando com cuidado, como quem aprende de novo o peso das coisas. O chão parece o mesmo, mas não responde igual aos pés. Tenho tentado encontrar suportes. Não substituições — isso não existe —, mas muletas improvisadas: uma rotina frágil, um café tomado sem vontade, a repetição dos dias como quem testa se o mundo ainda obedece a alguma ordem. Às vezes funciona. Às vezes não. Escrevo esta carta sem destinatário porque há ausências que não aceitam nome. Se eu escrevesse para alguém, teria de admitir um endereço. E o que ficou não mora em lugar nenhum. Está espalhado: numa cadeira vazia, num gesto interrompido, num silêncio que responde quando ninguém pergunta nada. Aprendi que a amputação não dói só no momento do corte. Ela dói depois, quando o corpo insiste em mandar sinais para o que não está mais ali. Ainda tent...

Natal Sem Embrulho

 Chega dezembro e o Natal vem junto. Não pede licença. Entra. Entra pelas vitrines exageradas, pelas músicas repetidas, pela pressa que tenta convencer todo mundo de que agora é hora de sentir alguma coisa específica. Mas o Natal nunca foi igual para todos. Nunca foi. Há quem chegue a ele com a casa cheia, conversa alta, mesa organizada. E há quem chegue com uma cadeira vazia que ninguém comenta, mas que ocupa espaço. Há quem esteja celebrando. E há quem esteja apenas cumprindo o dia. O Natal costuma ser vendido como um instante perfeito. E talvez esteja aí o erro. A vida real não trabalha com perfeição. Na vida real, famílias se amam e se ferem. Há assuntos que não encontram data para se resolver. Há abraços contidos, risos breves, silêncios longos demais para serem ignorados. Nem tudo se ajusta porque o calendário manda. Também é Natal para quem perdeu alguém este ano. Para quem trabalha enquanto outros descansam. Para quem chega cansado, distraído, sem fé sufic...

Festa de Natal

A família começou a chegar às seis da tarde, horário definido pela avó com a autoridade de quem já enterrou três maridos, criou sete filhos e não admite atraso nem para o fim do mundo. Às seis e cinco, ela já estava na porta, de vestido vermelho brilhante, olhando a rua como quem fiscaliza uma fuga em massa. O primeiro a chegar foi o tio Ernesto, trazendo um peru congelado “porque estava em promoção”. O peru parecia uma arma branca embrulhada em plástico e foi colocado na pia como um corpo sem identificação. A avó olhou, suspirou e decretou: — Vai descongelar no micro-ondas. Deus há de entender. Às seis e quinze, chegou a prima Carla, recém separada, com um sorriso largo demais para quem garante estar “ótima”. Veio acompanhada de um namorado novo, cujo nome ninguém conseguiu decorar porque ele falou baixo e foi interrompido três vezes antes de terminar a primeira frase. Ficou conhecido como “o moço”. Às seis e vinte, entrou a tia Lúcia com uma travessa de maionese que exigia ref...

Ela Vestia Só Perfume

  Naquela manhã, ela tirou a roupa sem transformar o gesto em anúncio. Não havia pressa nem intenção declarada. Apenas o corpo ficando livre, peça por peça, como quem devolve algo ao seu lugar original. A água do banho correu demorada. Escorreu pelos ombros, pelo ventre, pelas pernas, reconhecendo caminhos antigos. Ao sair, não se apressou em se cobrir. A pele encontrou o ar com surpresa mansa. Um arrepio curto — não de frio, mas de presença. O espelho devolveu um corpo comum, real, sem pedidos. Ela se olhou sem correções. Não havia nada a esconder nem a oferecer. Foi então que escolheu o perfume. Não para cobrir o que estava nu — mas para habitar. Uma gota no pulso. Outra na curva discreta abaixo do seio. Um rastro leve no pescoço, onde o cheiro se mistura ao pulso da pele. O perfume não era doce nem tímido. Tinha algo de quente, de baixo, de íntimo. Um cheiro que não se explica — permanece. Ela vestiu só perfume. Saiu assim. Nua, mas não exposta. O perfume fazia ...

Nem Tão Doidas, Nem Tão Santas

Elas chegaram quase juntas, como se combinassem atrasos. Não combinaram. A mesa já estava posta com xícaras desiguais, um prato de bolachas abertas e um silêncio breve — desses que não constrangem, apenas aguardam. Lúcia foi a primeira a falar, como sempre. Não por coragem, mas por hábito. Disse que o ônibus demorou mais do que o normal e que isso a deixou irritada sem motivo claro. Marta respondeu que motivo claro é luxo, coisa que só aparece quando a vida está organizada demais. Riram. Helena mexeu o açúcar no café até dissolver um pouco além do necessário. Ana chegou por último, trouxe pão quente, e o gesto foi suficiente para que ninguém comentasse sua ausência. Elas se conheciam há tempo demais para apresentações e pouco demais para explicações. O tipo de convivência que se sustenta no intervalo entre o que se diz e o que se cala. — Sonhei que estava numa igreja — disse Marta, com a naturalidade de quem comenta o clima. — Mas era uma igreja sem santos. Só bancos vazios e uma...

Nossas Sombraa

Eles caminham lado a lado há tanto tempo que já não sabem dizer quando começou esse hábito de andar sem se tocar. As sombras, sim, sempre se encontram primeiro. No chão, elas se alongam, se confundem, às vezes parecem uma coisa só. Os corpos seguem paralelos, atentos ao ritmo do passo, à irregularidade da calçada, ao barulho distante da cidade. Ela percebeu isso numa tarde comum, dessas em que nada pede atenção especial. O sol descia num ângulo oblíquo, dourando fachadas antigas, e as sombras surgiram antes que qualquer pensamento se organizasse. A dela avançava um pouco mais à frente. A dele, ligeiramente atrasada, parecia tentar alcançá-la. Não havia pressa. Apenas esse movimento lento, insistente. Eles não falam do que pesa. Aprenderam, com o tempo, a conviver com silêncios que não precisam ser preenchidos. As palavras, quando vêm, tratam do necessário: o horário, o caminho, o que falta em casa. O resto fica suspenso, como poeira no ar. O que não se diz ganha corpo na postura, n...

O Peso Leve das Coisas Que Ficam

A cidade amanheceu coberta por uma névoa baixa, quase à altura dos joelhos. A maioria atravessou o dia sem notar. Ela não. Tinha o costume antigo de perceber o que se move devagar demais para competir com a pressa. O bonde atrasou dois minutos. O atraso abriu um intervalo raro. Dentro dele, um homem apareceu, segurando um guarda-chuva vermelho, imóvel como alguém atento a um som que não se oferece aos outros. Havia algo no modo como os ombros dele se mantinham — um ritmo — que ela reconheceu antes mesmo de tentar entender. Não lembrou um rosto. Lembrou um pulso. O bonde chegou. Ela entrou. O homem permaneceu onde estava. O vidro fechou a cena, mas não interrompeu a sensação. No trabalho, o ocorrido não encontrou tradução possível. Não haveria utilidade em contar uma história que cabe inteira no espaço de um suspiro. Guardou para si. Certas percepções se desfazem no instante em que tentamos colocá-las em palavras. Ao fim da tarde, a chave girou na fechadura sem o atrito habitual...

Essa Felicidade Bandida

  Ela percebeu no meio de uma ação banal. Não houve susto, nem revelação. Estava dobrando uma roupa limpa quando, por um segundo exato, o corpo relaxou. Não o pensamento — o corpo. Os ombros cederam, a respiração se acomodou num ritmo antigo. Aquilo era raro. Ficou imóvel, a blusa suspensa no ar, tentando não assustar o instante. Não era alegria no sentido amplo da palavra. Não havia motivo, nem conquista, nem notícia. Era algo menor e, por isso mesmo, perigoso. Um estado provisório. Uma trégua. Ela já conhecia aquilo. Sabia que não se tratava de algo confiável. A felicidade, quando vinha assim, vinha sem contrato. Se deixasse o pensamento tocar, ela fugia. Então aprendeu a não nomear, a não comentar consigo mesma. Fingir que não percebeu. Mas o corpo percebe. Às vezes, ela surgia assim: numa dobra de roupa, numa rua atravessada sem pressa, num trecho esquecido de uma música antiga que insistia em sobreviver à memória. Outras vezes, aparecia dentro da saudade — o que pa...

A Manhã em Que o Propósito Silenciou

Helena despertou como quem retorna de um sonho interrompido. O quarto tinha a cor opaca das horas que ainda não decidiram se serão dia ou sombra. O corpo se levantou por hábito; o espírito, não se sabe. Na cozinha, a chaleira começou a gemer antes do previsto, num som que lembrava metal cansado. O vapor subia torto, esticando-se como um pensamento que não encontra apoio. Helena seguiu o desenho da fumaça até ele se desfazer no ar — essa vocação que tudo tem de desaparecer sem aviso. No corredor do prédio, o eco dos passos parecia atrasado. Lá fora, o frio ainda negociava território com a luz. A cidade respirava baixo, como se também estivesse poupando esforços. A moça da banca arrumava as revistas com gestos lentos, e o cachorro da esquina, sempre impaciente, permanecia sentado, olhando a rua como quem espera um retorno que já conhece de cor. No ônibus, Helena encostou a testa no vidro frio. As janelas embaçadas davam a impressão de que o mundo se diluía um pouco ant...

O Tom Exato do Cinza

  A moça deixou o consultório com passos rápidos, como se o corpo tivesse decidido sair antes que o pensamento alcançasse qualquer conclusão. O corredor parecia mais longo do que na chegada, esticado por uma luz branca que não aquecia nada. Não olhou para trás. Há portas que continuam abertas mesmo depois de fechadas, e ela não estava disposta a testar essa permanência. Do lado de fora, o dia tinha a cor indefinida das coisas que não se comprometem. Nem claro, nem escuro. Um cinza gasto, desses que não provocam espanto nem oferecem abrigo. Ela agarrou o cachecol, meio da cor do céu, meio da própria paisagem interna, e apertou-o contra o peito. O tecido áspero era uma certeza mínima, um ponto de contato num mundo que parecia ter perdido textura. Caminhou sem pressa consciente, mas com urgência no gesto. Os passos rápidos não buscavam destino, apenas distância. As fachadas dos prédios deslizavam ao lado como páginas que se recusam a ser lidas. Vitrines exibiam objetos perfeitamen...

Onde Guardar Tanta Saudade

  Não havia lugar. Gavetas abertas, caixas empilhadas, prateleiras limpas demais. A saudade não se interessava por limites. Escorria pelas frestas, ocupava o que não tinha nome, assentava-se onde o vazio parecia definitivo. Ela tentava organizar o espaço, mas a casa, que já não era mais sua, teimava em não se moldar. Quando ele estava ali, as paredes pareciam vibrar ao ritmo da música deles, dos risos compartilhados entre os sofás da sala, entre as canções que nunca terminavam. Os discos de vinil, que ainda repousavam sobre a mesa, eram testemunhas de uma época em que tudo parecia inquebrável. A música de Jobim, que se repetia ao fim de cada tarde, depois do jantar, quando ele pegava a guitarra e começava a tocar baixinho, ainda ecoava nas frestas da casa. Pela manhã, a saudade vinha baixa. Ficava perto da mesa enquanto o café passava do ponto, como se esperasse pela promessa de uma conversa. Um café a mais, ele dizia, e o dia começava mais tarde. Não pedia atenção. Às vezes t...

Quando o Propósito Se Esconde

  Há dias em que acordamos como quem caminha por dentro de um nevoeiro. O despertador toca, a casa se acende devagar, mas algo em nós permanece apagado. É como se o mundo inteiro tivesse uma função — girar, correr, produzir — e nós ficássemos ali, meio de lado, observando tudo passar sem saber exatamente para quê. Falta de propósito. Essa expressão que parece tão grande, mas que, na vida real, costuma chegar pequena, quase discreta. Ela não faz barulho. Não anuncia entrada. Só vai empurrando a alma um pouco para trás, um pouco para dentro, até que a gente começa a sentir que vive por obrigação — não por desejo. E é curioso: ninguém ensina a lidar com esse vazio. As pessoas falam sobre metas, sobre sonhos, sobre conquistas, mas raramente alguém admite que, às vezes, o sentido simplesmente se esconde. Como um objeto esquecido no fundo da gaveta: você sabe que está lá, mas não sabe exatamente em que momento deixou de usá-lo. Nesses dias, o mundo exige menos respostas ...

O Dia Que Não Amanheceu

A claridade falhou onde sempre acertava. Não houve anúncio, ruído, nem aquele trejeito discreto de azul que costuma insinuar o começo. O céu simplesmente permaneceu fechado, como um livro que recusa a primeira página. Ana estendeu a mão para o interruptor, mas hesitou. A escuridão da casa não era completa; tinha um brilho gasto, um resto de lume que não vinha de fonte alguma. Parecia o eco de uma luz esquecida. Na rua, as sombras estavam nítidas demais, como se ganhassem corpo quando o dia desistiu de nascer. A janela da floricultura deixava adivinhar os contornos das pétalas, mas nenhuma cor sobrevivia. As pessoas caminhavam com cautela, porém sem susto — o susto exige um contraste, e ali não havia nenhum. Ana seguiu para o trabalho apenas porque o corpo continuava sabendo o caminho. Passou pelo mercado, onde a primeira entrega da manhã já jazia na calçada, caixas empilhadas num silêncio que dispensava explicação. O padeiro empurrava o carrinho para dentro da loja com a expre...

O Dia Em Que Nada Mudou

Olívia não acordou diferente naquele dia. Nenhum pensamento luminoso, nenhuma disposição inédita. Abriu os olhos porque o despertador tocou, e isso bastava. A casa estava como sempre: o ar parado da manhã, um copo esquecido na pia, o tapete ligeiramente torto no corredor. Enquanto esquentava a água do café, percebeu que a chaleira fazia um ruído mais áspero que o normal. Ficou observando o vapor subir, sem tentar entender nada daquilo. Apenas observou. Às vezes o corpo presta atenção no que não importa. Desceu pelas escadas do prédio. O porteiro estava com o jornal apoiado no joelho, segurando as páginas com cuidado para não rasgar. A moça da banca levantou os olhos e sorriu sem muita força. O cachorro da esquina, que normalmente usava uma coleira azul, estava solto, sentado ao lado da árvore como se esperasse alguém atrasado. No ônibus, um menino abriu um caderno cheio de desenhos tortos. Em uma das páginas havia um sol verde. Ele não explicou nada; apenas virou a folha com nat...

O Peso e a Graça De Viver

Viver nunca foi tarefa simples. Desde o primeiro choro até o último suspiro, a vida nos atravessa com alegrias que acendem e dores que pesam. Não existe quem caminhe por este mundo sem carregar, em algum momento, um tipo de tristeza. É parte da condição humana — não como falha, mas como evidência de que estamos vivos. Há quem tente se proteger criando pequenas cápsulas ao redor de si: paredes altas, rotinas estreitas, sentimentos guardados como se fossem vidro. Assim, talvez se sofra menos. Talvez. Mas também se vive menos. Porque viver de verdade exige contato, vínculo, risco. Exige deixar que o outro nos toque, mesmo sabendo que todo toque tem a chance de deixar marca. O sofrimento nasce justamente aí: no laço. Nas pessoas que nos importam, nos silêncios que carregamos por elas, nos medos que não confessamos, mas sentimos inteiros. Sofremos porque o coração não sabe ser neutro; ele se enlaça, se estende, se doa. E cada relação que construímos — amor, amizade, cuidado — abre a por...

Cada Um No Seu Cada Um

  Naquela rua estreita onde a luz chegava tarde e ia cedo, havia três janelas que pareciam nunca se olhar. Três janelas alinhadas como três notas de uma música que ninguém mais sabia tocar. Atrás de cada uma delas, uma vida contida, recortada, resistente. Na janela da direita, morava Dona Nísia, que tinha o hábito de guardar silêncios em potes de vidro. Não era hábito recente; viera com ela desde anos que já não dizia em voz alta. Engraxava as tampas, rotulava cada frasco, colocava-os em prateleiras que rangiam de memória. À tarde, quando a casa começava a se estreitar sobre si mesma, ela abria um ou dois potes para arejar o ar. Era um ritual que ela não explicava nem a si mesma. Na janela da esquerda vivia Seu Ademir, relojoeiro aposentado que nunca conseguiu se aposentar do tempo. A mesa dele era uma geografia de engrenagens, molas, lentes de aumento, panos puídos. Ele ouvia cada tique como se fosse um recado deixado por alguém que tinha partido cedo demais. Não consertava re...

Tempos Diferentes

  A casa amanhecia antes dela. A luz das 7h12 parecia saber exatamente onde pousar — primeiro no chão frio, depois no canto da mesa onde ele costumava apoiar os dedos. Ela entrava na cozinha como quem atravessa um território antigo, onde cada objeto guarda uma respiração. A chaleira chiava. Ela ajustava a xícara. Só uma. Mas, sem perceber, afastava levemente a segunda cadeira, como se abrisse espaço para algo que o olhar não alcançava. Ele também passava por ali — não pela porta, mas pelo costume. Em seu plano, nada tinha peso, mas tudo tinha forma. E a forma dela seguia sendo seu norte. Quando a luz batia no rosto dela, ele se aproximava do brilho, como se ainda pudesse aquecer-se naquele amanhecer de outros tempos. Ela seguia sua rotina pelas ruas estreitas, onde as árvores tremiam com um vento quase tímido. Caminhava devagar, não por cansaço, mas por atenção: cada canto parecia ter guardado um vestígio dele. No banco da praça, abria sempre o mesmo livro. As páginas avançavam...

Domingo se Fantasia de Saudade

Domingo se fantasia de saudade — não importa o calendário, o clima ou a cidade. Vem sempre com essa roupa lenta, uma espécie de tecido que arrasta memórias pelo chão. Carrega o cheiro das casas que respiram devagar, as pausas longas das ruas quase vazias, e aquele silêncio que parece saber mais do que deveria. Letícia tinha ido embora. Não era possível determinar se por um tempo, por um susto, por si mesma. Ela era dessas presenças que sabiam desaparecer com precisão, como quem fecha a porta sem fazer barulho e deixa no ar apenas o vestígio do perfume. Não explicava, não prometia, não avisava. Apenas se diluía. Naquele domingo, ele acordou com a sensação incômoda de que havia algo faltando. Não era o café esquecido, nem a chave fora do lugar. Era Letícia — ou melhor, a ausência dela, ocupando o espaço onde antes havia riso, implicância, presença. Ele percebeu que sentia falta não exatamente dela, mas do jeito como ela preenchia silenciosamente o dia. O domingo, atento como um cúm...

As Três Noites de Ismênia

  AS TRÊS NOITES DE ISMÊNIA   Aos setenta e nove anos, Dona Ismênia já sabia que a noite não chega de uma vez. Primeiro, o mundo escurece pelas bordas. Depois, os objetos ficam mais densos, como se guardassem a respiração. Só então a noite se instala inteira, ocupando a casa com seu passo de quem conhece todos os cômodos. Naquela semana, porém, a noite parecia ter vindo visitá-la com algum propósito. Vieram três noites — distintas, silenciosas, insistentes. E, de algum modo, bastaram.   PRIMEIRA NOITE — a do barulho antigo   Ismênia estava na poltrona azul quando ouviu o rangido do portão. Era tarde demais para visitas, e cedo demais para lembranças. Mas o som chegou claro, amarrado a um tempo em que o marido voltava do trabalho com o paletó úmido de chuva e o jornal debaixo do braço. Ela fechou os olhos. Com eles fechados, viu o que não via há anos. Viu o passo contido dele nos ladrilhos, o cuidado para não acordá-la, o toque discreto na porta d...