O Dia Que Não Amanheceu
A claridade falhou onde sempre acertava.
Não houve anúncio, ruído, nem aquele trejeito discreto de azul que costuma
insinuar o começo. O céu simplesmente permaneceu fechado, como um livro que
recusa a primeira página.
Ana estendeu a mão para o
interruptor, mas hesitou.
A escuridão da casa não era completa; tinha um brilho gasto, um resto de lume
que não vinha de fonte alguma. Parecia o eco de uma luz esquecida.
Na rua, as sombras estavam
nítidas demais, como se ganhassem corpo quando o dia desistiu de nascer. A
janela da floricultura deixava adivinhar os contornos das pétalas, mas nenhuma
cor sobrevivia. As pessoas caminhavam com cautela, porém sem susto — o susto
exige um contraste, e ali não havia nenhum.
Ana seguiu para o trabalho
apenas porque o corpo continuava sabendo o caminho.
Passou pelo mercado, onde a primeira entrega da manhã já jazia na calçada,
caixas empilhadas num silêncio que dispensava explicação. O padeiro empurrava o
carrinho para dentro da loja com a expressão de quem perdeu a hora, embora o
relógio garantisse o contrário.
Mais adiante, um casal
discutia baixinho, como se temessem perturbar o escuro. Ninguém olhava para
cima; olhar para cima seria atribuir intenção ao que acontecia, e o fenômeno
não parecia merecer essa cortesia.
Quando Ana chegou ao
edifício, a porta de vidro refletiu seu rosto de um modo estranho, limpo
demais, como se alguém tivesse apagado os vestígios do cansaço durante a noite.
Era o mesmo rosto — só que filtrado pelo não-amanhecer.
Subiu as escadas devagar. A
cada passo, sentia que o dia não começaria ali dentro, nem em lugar algum. O ar
tinha a densidade das madrugadas que se prolongam além do que deveriam, mas sem
o conforto de uma explicação.
Sentou à mesa e abriu o
caderno de anotações.
A letra, geralmente firme, parecia outra.
Escreveu: “Hoje, o tempo errou de porta.”
Fechou o caderno. Não havia
o que registrar além disso.
Ao sair para almoçar,
percebeu que a cidade não estava parada — estava suspensa. Como se aguardasse o
gesto de alguém que nunca chegaria. Uma criança segurava um balão aceso por
dentro, um balão de festa que emitia um brilho tímido, suficiente para iluminar
o próprio rosto. A criança encarava o objeto como se fosse a primeira vez que o
via — ou a última.
Ana caminhou até a praça. A
fonte continuava ligada, mas a água parecia mais pesada, como se respondesse à
falta de luz com uma lentidão resignada. O som era o mesmo, porém mais espesso.
Sentou no banco.
Ali, pela primeira vez no dia, teve a impressão de que o escuro pulsava em
ritmo próprio, diferente do da cidade. Não era ameaça, não era proteção — era
apenas um estado entre dois tempos, um intervalo que não sabia como se
resolver.
A luz não apareceu naquele
dia.
Não houve sol, nem manhã emprestada, nem lampejo tardio.
Quando voltou para casa,
Ana acendeu a lâmpada apenas para conferir se ainda funcionava. Funcionava —
mas não ocupava o espaço como antes. Era uma luz que não se impunha, apenas
coexistia.
Encostou a testa na janela.
O vidro estava morno, como se houvesse ali um calor antigo, remanescente de um
sol que não nascera.
Respirou fundo.
Não havia dia.
Também não havia noite.
Havia um entrelugar, e
dentro dele uma pergunta que ninguém formulou — e que, por isso mesmo,
permaneceu inteira.
Silvia Marchiori Buss
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