Para...

 Depois que você partiu,

me sinto amputada.

Não é uma metáfora dramática — é física.
Falta um apoio invisível, algo que sustentava o corpo sem que eu percebesse. Ando com cuidado, como quem aprende de novo o peso das coisas. O chão parece o mesmo, mas não responde igual aos pés.

Tenho tentado encontrar suportes.
Não substituições — isso não existe —, mas muletas improvisadas: uma rotina frágil, um café tomado sem vontade, a repetição dos dias como quem testa se o mundo ainda obedece a alguma ordem. Às vezes funciona. Às vezes não.

Escrevo esta carta sem destinatário porque há ausências que não aceitam nome. Se eu escrevesse para alguém, teria de admitir um endereço. E o que ficou não mora em lugar nenhum. Está espalhado: numa cadeira vazia, num gesto interrompido, num silêncio que responde quando ninguém pergunta nada.

Aprendi que a amputação não dói só no momento do corte.
Ela dói depois, quando o corpo insiste em mandar sinais para o que não está mais ali. Ainda tento apoiar o peso onde não há mais chão. Ainda me pego estendendo a mão para um hábito que não existe. O corpo demora a entender o que a vida já anunciou.

As pessoas falam em seguir.
Mas ninguém explica como se anda quando falta um pedaço essencial do equilíbrio. Então sigo como posso: tropeçando menos do que antes, mais do que gostaria. Há dias em que me sustento apenas pela memória do movimento. Outros, pelo cansaço de cair.

Descobri que os suportes não vêm prontos.
Eles não se oferecem. A gente inventa. Um texto mal escrito. Uma tarde atravessada sem chorar. Um objeto que permanece onde foi deixado, como se guardasse uma regra antiga. Pequenas próteses emocionais, mal ajustadas, mas necessárias.

Não escrevo para pedir resposta.
Escrevo para não desaparecer junto com o que se foi. Para marcar presença onde tudo ameaça virar falta. Para dizer, mesmo sem destinatário, que continuo aqui — incompleta, sim —, mas respirando, aprendendo a redistribuir o peso da vida em partes que ainda existem.

Talvez um dia eu caminhe sem pensar na ausência a cada passo.
Talvez não.
Por enquanto, aceito este corpo novo, esta forma de existir com menos apoio e mais atenção. Aceito porque não há escolha — e porque, estranhamente, ainda há movimento.

Esta carta não termina.
Ela apenas se apoia onde dá
e continua.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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