Num Domingo Qualquer...você apareceu

Num domingo qualquer, desses que não anunciam nada além do próprio tempo, você apareceu.

A manhã tinha cheiro de café requentado e pão esquecido na mesa. O rádio falava baixo, como se soubesse que domingo não gosta de excesso. A casa se movia devagar, em economia de gestos: passos curtos, pensamentos soltos, o dia inteiro ainda sem forma.

Eu não esperava. Domingo também não pede espera. Ele simplesmente acontece.

Você entrou sem ruído. Nenhuma porta bateu, nenhuma frase marcou presença. Foi como se já estivesse ali antes, apenas esperando ser notado. Não trouxe novidades nem perguntas. Trouxe o corpo inteiro, essa coisa concreta que ocupa espaço e muda o ar ao redor.

Sentou perto, não perto demais. A distância exata para que o silêncio não precisasse se explicar. Falamos pouco. Domingo não gosta de discursos. As palavras eram simples, quase domésticas: o tempo, uma lembrança atravessada, um detalhe pequeno que não merecia importância — e por isso mesmo ficou.

Entre uma frase e outra, o silêncio se acomodava. Não pesava. Não urgia. Fazia parte.

Do lado de fora, nada se alterava. Um vizinho regava plantas sem pressa. Alguém passou com sacolas balançando. Um cachorro resistia à coleira como se negociasse o próprio caminho. O mundo seguia intacto, alheio ao que acontecia aqui dentro.

Houve um momento curto, quase imperceptível, em que o corpo esqueceu de se defender. Os ombros cederam um pouco. A respiração encontrou um ritmo antigo, reconhecível sem memória. Não era alegria. Não era tristeza. Era outra coisa, menos nomeável. Uma trégua.

Você não ficou muito. Domingo também não permite longas permanências. As coisas que importam costumam passar sem alarde, deixando apenas o deslocamento.

Quando você foi embora, a casa voltou a ser casa. O rádio continuou baixo. O café esfriou de vez. Mas nem tudo se recompôs — e isso não pediu conserto.

Muitos outros domingos virão. Está no calendário. Um depois do outro, iguais por fora. É só prestar atenção para sentir, em algum deles, a sua presença. Mesmo quando você não vier.


Silvia Marchiori Buss








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