Quando o Propósito Se Esconde
Há dias em que acordamos como quem caminha por dentro de um nevoeiro.
O despertador toca, a casa se acende devagar, mas algo em nós permanece
apagado.
É como se o mundo inteiro tivesse uma função — girar, correr, produzir —
e nós ficássemos ali, meio de lado, observando tudo passar sem saber exatamente
para quê.
Falta de propósito.
Essa expressão que parece tão grande, mas que, na vida real, costuma chegar
pequena, quase discreta.
Ela não faz barulho. Não anuncia entrada.
Só vai empurrando a alma um pouco para trás, um pouco para dentro,
até que a gente começa a sentir que vive por obrigação — não por desejo.
E é curioso: ninguém ensina
a lidar com esse vazio.
As pessoas falam sobre metas, sobre sonhos, sobre conquistas,
mas raramente alguém admite que, às vezes, o sentido simplesmente se esconde.
Como um objeto esquecido no fundo da gaveta: você sabe que está lá,
mas não sabe exatamente em que momento deixou de usá-lo.
Nesses dias, o mundo exige
menos respostas e mais delicadeza.
Porque propósito não é um troféu, não é uma revelação divina,
não é um grande acontecimento que aparece com fogos de artifício.
Às vezes, ele é só um fio.
Um fio tão fino que quase não se vê, mas que, quando tocado, lembra que ainda
há movimento.
O propósito pode estar na
xícara de café que você segura com as duas mãos
para aquecer o dia que nasceu frio demais.
Pode estar na conversa curta com alguém que você nem conhece,
mas que te devolve um pedaço de humanidade.
Pode estar na lembrança de quem já se foi e, mesmo ausente,
continua acendendo pequenas luzes no caminho.
Há quem acredite que viver
bem é ter grandes planos.
Mas há dias em que viver bem é apenas conseguir atravessar a manhã.
E isso já é muito.
O propósito, quando falta,
não é uma sentença.
É um aviso suave: a vida está pedindo para ser olhada com outros olhos.
Para ser respirada com mais calma.
Para ser escutada em suas frestas — não em seus discursos grandiosos.
Talvez o sentido esteja…
não no que fazemos,
mas no modo como permanecemos.
No cuidado com as próprias fragilidades.
No respeito ao próprio limite.
Na coragem de admitir que estamos cansados, sim —
mas seguimos, porque ainda há algo, mesmo pequeno, que nos chama.
E, se nada chamar hoje,
tudo bem.
Amanhã talvez chame.
Ou depois.
O propósito não tem pressa.
Ele só precisa que a gente não desista de procurá-lo —
nem de nós mesmos.
Enquanto isso, que cada um
encontre um abrigo mínimo:
uma música, um cheiro, um livro, uma lembrança,
um gesto de quem amamos.
Às vezes é só disso que a vida precisa para continuar respirando dentro da
gente.
Porque, mesmo quando não
sabemos para onde ir,
a vida — silenciosa e teimosa — continua a nos empurrar para frente.
E, no fundo, talvez seja esse o propósito mais discreto e mais verdadeiro de
todos:
seguir.
Apesar do nevoeiro.
Até que a luz volte.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário