O Tom Exato do Cinza

 A moça deixou o consultório com passos rápidos, como se o corpo tivesse decidido sair antes que o pensamento alcançasse qualquer conclusão. O corredor parecia mais longo do que na chegada, esticado por uma luz branca que não aquecia nada. Não olhou para trás. Há portas que continuam abertas mesmo depois de fechadas, e ela não estava disposta a testar essa permanência.

Do lado de fora, o dia tinha a cor indefinida das coisas que não se comprometem. Nem claro, nem escuro. Um cinza gasto, desses que não provocam espanto nem oferecem abrigo. Ela agarrou o cachecol, meio da cor do céu, meio da própria paisagem interna, e apertou-o contra o peito. O tecido áspero era uma certeza mínima, um ponto de contato num mundo que parecia ter perdido textura.

Caminhou sem pressa consciente, mas com urgência no gesto. Os passos rápidos não buscavam destino, apenas distância. As fachadas dos prédios deslizavam ao lado como páginas que se recusam a ser lidas. Vitrines exibiam objetos perfeitamente alinhados, iluminados demais para aquela hora do dia. Ela passou por todas como quem atravessa um cenário montado para outra pessoa.

O ruído da cidade chegava fragmentado. Um freio de ônibus, o estalo seco de um salto no asfalto, um riso curto escapando de uma mesa de bar. Sons soltos, sem enredo. Tudo parecia acontecer ao mesmo tempo, mas nada se fixava. O olhar da moça atravessava rostos e placas, sem se deter. Não era distração; era excesso.

Em determinado momento, diminuiu o passo. Não por decisão, mas porque o corpo, às vezes, impõe pausas sem explicar o motivo. Parou diante de uma banca fechada, jornais ainda visíveis atrás da grade. Manchetes grandes prometiam acontecimentos definitivos. Ela desviou os olhos. Havia dias em que nenhuma palavra precisava ser tão segura de si.

O cachecol escorregou um pouco. Ela o ajustou novamente, enrolando-o de forma quase cuidadosa demais, como se aquele gesto pudesse reorganizar alguma ordem perdida. Os dedos permaneceram ali por um instante maior que o necessário, sentindo o tecido, repetindo o movimento. Pequenos rituais têm essa função discreta: não resolvem, mas sustentam.

No reflexo de uma vitrine, viu-se de perfil. O rosto imóvel, a expressão suspensa, como se estivesse no intervalo entre duas versões de si mesma. Não houve susto. Tampouco reconhecimento pleno. Algumas imagens não exigem resposta; apenas passam.

O semáforo fechou. Ela atravessou mesmo assim, guiada mais pelo fluxo do que pela regra. Do outro lado da rua, o dia continuava o mesmo. Cinza, fiel à própria indecisão. As escolhas se acumulavam sem se apresentar: virar à esquerda, seguir em frente, entrar em algum lugar aquecido. Nada se impunha. Tudo permanecia possível e, por isso mesmo, distante.

Seguiu andando. O cachecol firme nas mãos. O olhar ainda vazio, mas atento ao que não se dizia. Não havia pressa por chegar, nem urgência por entender. Apenas o movimento contínuo de quem caminha carregando algo sem nome, procurando — não um destino —, mas o tom exato do cinza que agora aprendia a habitar.

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Silvia Marchiori Buss

 

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