Essa Felicidade Bandida

 Ela percebeu no meio de uma ação banal.

Não houve susto, nem revelação. Estava dobrando uma roupa limpa quando, por um segundo exato, o corpo relaxou. Não o pensamento — o corpo. Os ombros cederam, a respiração se acomodou num ritmo antigo. Aquilo era raro.

Ficou imóvel, a blusa suspensa no ar, tentando não assustar o instante.

Não era alegria no sentido amplo da palavra. Não havia motivo, nem conquista, nem notícia. Era algo menor e, por isso mesmo, perigoso. Um estado provisório. Uma trégua.

Ela já conhecia aquilo.
Sabia que não se tratava de algo confiável. A felicidade, quando vinha assim, vinha sem contrato. Se deixasse o pensamento tocar, ela fugia. Então aprendeu a não nomear, a não comentar consigo mesma. Fingir que não percebeu.

Mas o corpo percebe.

Às vezes, ela surgia assim: numa dobra de roupa, numa rua atravessada sem pressa, num trecho esquecido de uma música antiga que insistia em sobreviver à memória. Outras vezes, aparecia dentro da saudade — o que parecia quase uma afronta. Como se ousasse existir onde só deveria haver falta.

Era uma felicidade torta.
Não pedia permissão. Não respeitava o cenário. Sentava-se ao lado do que ainda doía e ficava ali, desconfortável, misturada, impossível de explicar sem parecer ingratidão ou traição.

Ela nunca durava muito.
Havia um instante exato em que se quebrava — quando alguém perguntava “está tudo bem?”, quando o pensamento avançava demais, quando o futuro entrava na sala. A felicidade bandida não suporta projeções. Vive de furtos.

Ainda assim, deixava sinais.
Não grandes transformações, mas pequenas alterações no dia: uma leve tolerância com o mundo, uma disposição mínima para continuar, uma sensação estranha de que, apesar de tudo, algo ainda pulsava.

Ela não fazia promessas.
Não ensinava nada. Não curava. Não fechava ciclos. Apenas aparecia e ia embora, como alguém que passa por uma cidade errada, senta num banco por alguns minutos e segue viagem antes que alguém pergunte o nome.

E talvez fosse isso o mais difícil de aceitar:
que aquela felicidade não vinha para ficar, mas vinha.
E isso, pra ela, já era um desvio da ordem das coisas.

 

Silvia Marchiori Buss

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