O Dia Em Que Nada Mudou

Olívia não acordou diferente naquele dia.

Nenhum pensamento luminoso, nenhuma disposição inédita. Abriu os olhos porque o despertador tocou, e isso bastava. A casa estava como sempre: o ar parado da manhã, um copo esquecido na pia, o tapete ligeiramente torto no corredor.

Enquanto esquentava a água do café, percebeu que a chaleira fazia um ruído mais áspero que o normal. Ficou observando o vapor subir, sem tentar entender nada daquilo. Apenas observou. Às vezes o corpo presta atenção no que não importa.

Desceu pelas escadas do prédio. O porteiro estava com o jornal apoiado no joelho, segurando as páginas com cuidado para não rasgar. A moça da banca levantou os olhos e sorriu sem muita força. O cachorro da esquina, que normalmente usava uma coleira azul, estava solto, sentado ao lado da árvore como se esperasse alguém atrasado.

No ônibus, um menino abriu um caderno cheio de desenhos tortos. Em uma das páginas havia um sol verde. Ele não explicou nada; apenas virou a folha com naturalidade. Olívia olhou por um instante e depois desviou a atenção. O ônibus seguiu sua rota, fazendo as mesmas curvas de todos os dias.

No escritório, ela chegou antes das conversas. As mesas estavam vazias, as cadeiras alinhadas, o cheiro de plástico novo misturado ao pó que o pessoal da limpeza nunca alcançava nos cantos. Ela colocou a bolsa na gaveta, ligou o computador e ficou alguns segundos sem tocar em nada, só observando a tela acender.

O dia passou dentro do ritmo habitual: e-mails, telefonemas, alguém reclamando da máquina de café, alguém rindo alto demais no corredor. Nada chamou sua atenção mais do que o necessário, mas pequenos fragmentos da manhã continuavam rondando — o ruído da chaleira, o sol verde, a coleira ausente do cachorro. Não formavam nada. Estavam apenas ali.

À noite, ao chegar em casa, abriu a geladeira e viu um saco de damascos. Não lembrava de ter comprado. Pegou um, mastigou devagar, sentindo o gosto meio doce, meio áspero. Depois lavou o pote que tinha usado no café da manhã e guardou no armário.

Arrumou duas coisas fora do lugar na sala — um livro abandonado no sofá e uma blusa pendurada na cadeira. A rotina se instalou como sempre.

Olívia apagou a luz da cozinha, passou a mão na bancada para verificar se não tinha deixado nada fora do lugar e seguiu pelo corredor escuro até o quarto. Tirou os sapatos, dobrou a roupa sobre a cadeira e deitou-se. A casa ficou quieta. Só isso.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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