Domingo se Fantasia de Saudade
Domingo se fantasia de saudade — não importa o calendário, o clima ou a cidade. Vem sempre com essa roupa lenta, uma espécie de tecido que arrasta memórias pelo chão. Carrega o cheiro das casas que respiram devagar, as pausas longas das ruas quase vazias, e aquele silêncio que parece saber mais do que deveria.
Letícia tinha ido embora.
Não era possível determinar se por um tempo, por um susto, por si mesma. Ela
era dessas presenças que sabiam desaparecer com precisão, como quem fecha a
porta sem fazer barulho e deixa no ar apenas o vestígio do perfume. Não explicava,
não prometia, não avisava. Apenas se diluía.
Naquele domingo, ele
acordou com a sensação incômoda de que havia algo faltando. Não era o café
esquecido, nem a chave fora do lugar. Era Letícia — ou melhor, a ausência dela,
ocupando o espaço onde antes havia riso, implicância, presença. Ele percebeu que
sentia falta não exatamente dela, mas do jeito como ela preenchia
silenciosamente o dia.
O domingo, atento como um
cúmplice antigo, tratou de acentuar tudo. Exibiu a xícara que ela deixara na
pia, ampliou o eco da música que ela cantarolava sem letra certa, soprou no
ouvido dele a lembrança de como ela pronunciava seu nome com aquela ironia mansa
— a forma mais elegante que encontrava para dizer que gostava.
As horas caíram uma sobre a
outra com a preguiça típica dos dias inúteis. Ele pensou em ligar, mas não
ligou. Pensou em sair, mas não saiu. Optou pelo silêncio, o único que não o
obrigava a escolher entre esperar ou desistir. O silêncio sabia esperar por
ele.
Quando o fim da tarde
começou a dissolver as cores do céu, ele entendeu que o domingo não era o vilão
da história. Apenas vestia a fantasia de saudade porque alguém precisava ocupar
esse papel. Letícia não voltaria naquela noite. Talvez voltasse na outra.
Talvez só no próximo mês. Talvez nunca. Ele já não insistia em decifrar.
Fechou a janela, apagou a
luz da sala e caminhou devagar pelo corredor. A casa parecia maior sem ela,
como se tivesse ganho paredes novas. Não havia início para retomar nem final
para encerrar. Apenas aquele domingo — cumprindo seu ofício antigo: lembrar o
que ele tentava empurrar para um canto esquecido da memória.
Silvia Marchiori Buss
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