O Peso e a Graça De Viver

Viver nunca foi tarefa simples. Desde o primeiro choro até o último suspiro, a vida nos atravessa com alegrias que acendem e dores que pesam. Não existe quem caminhe por este mundo sem carregar, em algum momento, um tipo de tristeza. É parte da condição humana — não como falha, mas como evidência de que estamos vivos.

Há quem tente se proteger criando pequenas cápsulas ao redor de si: paredes altas, rotinas estreitas, sentimentos guardados como se fossem vidro. Assim, talvez se sofra menos. Talvez. Mas também se vive menos. Porque viver de verdade exige contato, vínculo, risco. Exige deixar que o outro nos toque, mesmo sabendo que todo toque tem a chance de deixar marca.

O sofrimento nasce justamente aí: no laço. Nas pessoas que nos importam, nos silêncios que carregamos por elas, nos medos que não confessamos, mas sentimos inteiros. Sofremos porque o coração não sabe ser neutro; ele se enlaça, se estende, se doa. E cada relação que construímos — amor, amizade, cuidado — abre a porta para a possibilidade do ferimento. Ainda assim continuamos, porque o contrário seria não existir plenamente.

A vida é essa alternância constante entre dor e delicadeza. Entre dias que passam leves e noites que pesam mais do que deveriam. Entre encontros que iluminam e ausências que reorganizam o mundo ao redor. Nada disso vem com manual, e talvez o mais honesto seja admitir que viver sempre pedirá algum grau de coragem.

Coragem para atravessar a dor sem torná-la bandeira.
Coragem para sentir sem se esconder.
Coragem para aceitar que a tristeza não nos diminui; apenas revela o tamanho do vínculo que tivemos com alguém ou com algo que nos era importante.

No fim, viver é isso: carregar um pouco de sofrimento, sim, mas também reconhecer a beleza insistente que teima em existir entre as brechas. Porque apenas quem vive de verdade é capaz de sentir — e, ainda que doa, é esse sentir que nos faz humanos.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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