Natal Sem Embrulho
Chega dezembro e o Natal vem junto.
Não pede licença. Entra.
Entra pelas vitrines exageradas, pelas músicas repetidas, pela pressa que tenta convencer todo mundo de que agora é hora de sentir alguma coisa específica.
Mas o Natal nunca foi igual para todos.
Nunca foi.
Há quem chegue a ele com a casa cheia, conversa alta, mesa organizada.
E há quem chegue com uma cadeira vazia que ninguém comenta, mas que ocupa espaço.
Há quem esteja celebrando.
E há quem esteja apenas cumprindo o dia.
O Natal costuma ser vendido como um instante perfeito.
E talvez esteja aí o erro.
A vida real não trabalha com perfeição.
Na vida real, famílias se amam e se ferem.
Há assuntos que não encontram data para se resolver.
Há abraços contidos, risos breves, silêncios longos demais para serem ignorados.
Nem tudo se ajusta porque o calendário manda.
Também é Natal para quem perdeu alguém este ano.
Para quem trabalha enquanto outros descansam.
Para quem chega cansado, distraído, sem fé suficiente para discursos prontos.
E para quem não sabe exatamente o que sente.
Mesmo assim, o dia acontece.
Talvez o Natal não seja sobre felicidade.
Talvez seja sobre presença — ou sobre a falta dela.
Sobre estar ali sem fingir além do necessário.
Sobre atravessar algumas horas com honestidade.
O Natal pode ser pequeno.
Pode caber num café passado mais devagar.
Numa mensagem escrita sem expectativa.
Numa memória que aperta, mas não precisa ser empurrada para longe.
Não é preciso gostar do Natal.
Não é preciso sorrir o tempo todo.
Não é preciso transformar emoção em obrigação.
O Natal também cabe em quem observa mais do que participa.
Em quem escuta mais do que fala.
Em quem prefere a janela ao centro da sala.
Talvez cada um atravesse este Natal do jeito que der.
Sem grandes resoluções.
Sem promessas que não cabem.
Há dias em que a gente apenas cumpre o calendário.
Senta onde dá.
Escuta o que consegue.
E espera a hora passar.
O Natal também pode ser isso:
um dia comum atravessado por lembranças incomuns.
Um dia que não conserta nada,
mas também não destrói.
Depois, ele vai embora.
Como tudo vai.
E o que fica não é ensinamento, nem lição.
É só a vida retomando seu ritmo desigual,
com seus vazios, seus excessos,
e essa estranha insistência em seguir.
Silvia Marchiori Buss
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