Onde Guardar Tanta Saudade

 Não havia lugar.

Gavetas abertas, caixas empilhadas, prateleiras limpas demais. A saudade não se interessava por limites. Escorria pelas frestas, ocupava o que não tinha nome, assentava-se onde o vazio parecia definitivo.
Ela tentava organizar o espaço, mas a casa, que já não era mais sua, teimava em não se moldar. Quando ele estava ali, as paredes pareciam vibrar ao ritmo da música deles, dos risos compartilhados entre os sofás da sala, entre as canções que nunca terminavam. Os discos de vinil, que ainda repousavam sobre a mesa, eram testemunhas de uma época em que tudo parecia inquebrável. A música de Jobim, que se repetia ao fim de cada tarde, depois do jantar, quando ele pegava a guitarra e começava a tocar baixinho, ainda ecoava nas frestas da casa.

Pela manhã, a saudade vinha baixa.
Ficava perto da mesa enquanto o café passava do ponto, como se esperasse pela promessa de uma conversa. Um café a mais, ele dizia, e o dia começava mais tarde. Não pedia atenção. Às vezes tomava a cadeira da frente; às vezes, era só um desvio no pensamento. Não pesava, mas desalinhava tudo. Na rua, ela revivia os lugares onde já tinham sido: o banco de praça onde se sentavam para olhar a cidade enquanto o sol se punha, a velha cafeteria de esquina onde o cheiro do pão fresco se misturava com a fumaça do cigarro dele. Eles se entreolhavam em silêncio, o tipo de silêncio que falava por eles, como se as palavras fossem desnecessárias.

Os objetos serviam de passagem. Nunca de abrigo.
O copo esquecido, o casaco ainda com a memória do corpo. A chaleira que ele deixava sobre a pia, sempre com um toque de chá gelado, o que ela nunca soubera fazer sozinha. Uma música, que tocava nas tardes de sábado, uma melodia que só eles entendiam. Um som suave, quase secreto. Jobim, Vinícius, mas também aquela canção que ninguém mais lembrava, a do violão desafinado tocando à meia-noite.

A saudade preferia os instantes sem moldura: o gesto interrompido, a palavra suspensa, o segundo antes do sono fechar os olhos.
Não se deixava empurrar para trás. O passado não a continha. Ela andava solta entre o que foi e o que insiste, sempre caminhando por aqueles cantos da casa, onde a luz ainda parecia vir de algum lugar distante. Às vezes confundia-se com o ar da casa, de tão constante. Quando ela se sentava à janela, o vento que passava parecia trazer algo dele, como se a presença estivesse ali, nas frestas da cortina, nos passos que ela ainda ouvia ao fundo.

E a casa... Como a casa se despedia dela, dia após dia. Os tapetes, os quadros, as cadeiras vazias.
Na rua, diluía-se melhor. Misturava-se aos passos, ao ruído dos dias, ao movimento dos outros. Mas sempre havia algo que a denunciava. Uma esquina, um olhar, a rua que se abria como um corredor de memórias. Ela via o casal na praça, e seu coração apertava, porque aquilo ainda era um reflexo de algo que não se apagava. Ela lembrava da última viagem que fizeram juntos, para a praia, onde o mar era azul e eles caminhavam descalços, como se o mundo fosse um lugar de promessas. E ao voltar, o vento da estação de trem, e as mãos se tocando pela última vez. Um toque que, agora, estava preso no tempo.

Guardar, ela percebeu, já não fazia sentido. A saudade não se deixava conter. Muda de lugar sem aviso, ora quase imperceptível, ora ocupando tudo. Não quer cofres, nem promessas, nem futuro. Circula. Naquele momento, ela olhou para o relógio antigo na parede — o mesmo que ele olhava toda manhã, antes de sair para o trabalho — e sentiu que o tempo estava ali, parado, como se o relógio ainda estivesse marcando as horas daquele amor que não acabara.

Fica onde cai.
No meio de uma frase que não termina.
No olhar que demora um segundo além do necessário.
No intervalo curto entre uma hora e outra.

Ouvia ainda o som da guitarra dele pela casa. E os risos. E a música que tocava no final da tarde, como se tudo estivesse aguardando por algo que nunca mais aconteceria.
Não cabe.
E não sai.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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