Olhares Distantes
Eles nunca se olharam de verdade.
O que havia era um
ajuste involuntário do rosto, um desvio calculado, como quem reconhece a
presença de algo sensível demais para ser tocado. Encontravam-se no mesmo
vagão, quase sempre no fim da tarde, quando o dia já vinha gasto e as pessoas
pareciam menos inteiras.
Ela se sentava perto da
porta. Não por pressa, mas por hábito. O corpo ligeiramente inclinado para
frente, como se estivesse sempre prestes a levantar. As mãos seguravam a bolsa
com firmeza excessiva, gesto antigo, aprendido em tempos em que era preciso vigiar
o que se tinha — ou o que se perdia.
Ele ficava de pé,
apoiado no metal frio, o olhar pousado em qualquer ponto que não fosse gente.
Observava reflexos: o vidro, o próprio rosto recortado em outros rostos, a
paisagem passando em blocos desordenados. Tinha um modo de existir sem ocupar
espaço, como se pedisse desculpas por estar ali.
Às vezes, o vagão freava
bruscamente. O corpo dela avançava um pouco, o dele se reequilibrava. Era nesse
intervalo — curto, imperfeito — que os olhos quase se encontravam. Não era
troca. Era passagem.
Ela via nele algo que
não sabia nomear: uma espécie de desistência limpa, sem drama. Ele percebia
nela uma resistência silenciosa, não heroica, apenas contínua. Nenhum dos dois
pensava nisso depois. O pensamento vinha sempre atrasado.
Desciam em estações
diferentes.
Ela caminhava até casa
contando mentalmente tarefas simples: lavar, organizar, responder, dormir. Ele
seguia até um quarto alugado onde tudo parecia provisório demais para ser
chamado de lar. Nenhum dos dois levava o outro consigo de forma consciente. Ainda
assim, algo ficava.
Um incômodo leve. Um
eco.
Ela, certa noite, parou
diante do espelho e demorou mais do que o habitual para reconhecer o próprio
rosto. Ele, dias depois, percebeu que havia esquecido a data exata de um
acontecimento importante — não sabia dizer qual, apenas sentia falta.
Os encontros
continuaram. Iguais e diferentes. Nunca avançaram um centímetro além do
permitido. Nunca recuaram o suficiente para desaparecer.
E assim permaneceram:
dois olhares que não se alcançam, mas também não se apagam. Como luzes
distantes em margens opostas, que não guiam caminho algum, mas confirmam —
silenciosamente — que ainda há alguém acordado do outro lado.
Silvia Marchiori Buss
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