Nossas Noites

Eles se encontravam quase sempre no mesmo bar.

Não porque fosse especial — não era. Um balcão gasto, luz amarelada demais para embelezar alguém, música baixa que ninguém escutava direito. Um bar qualquer, desses que ficam abertos quando a cidade já desistiu do dia.

Ela costumava chegar depois do plantão. Enfermeira. O corpo ainda atento, como se pudesse ser chamado a qualquer momento. Trazia nos ombros o cansaço de quem passou horas medindo dores alheias. O cabelo preso sem cuidado, a pele limpa, o olhar firme. Havia nela uma concentração silenciosa, uma espécie de calma alerta que chamava atenção sem pedir.

Ele geralmente já estava ali. Professor. O tipo que passa o dia explicando o mundo e à noite prefere observá-lo em silêncio. Bebia devagar. Tinha gestos contidos, postura reta demais para um bar tão comum. As mãos grandes descansavam sobre o copo como se segurassem um pensamento. Falava pouco. Sorria menos ainda.

Não se buscavam.
Se reconheciam.

Às vezes o encontro começava com um aceno breve. Outras, apenas com a ocupação natural do banco ao lado. As palavras eram poucas, quase técnicas: “cansada?”, “aula longa”, “mais um?”. Nada que precisasse ser desenvolvido. O resto se organizava em outro lugar.

Ela cruzava as pernas sem perceber. Ele acompanhava o gesto como quem lê algo importante. O braço dela encostava no dele, e ninguém se afastava. Havia uma atenção contida, quase cuidadosa, como se ambos soubessem exatamente o que estavam observando — e o que estavam evitando.

O bar permanecia o mesmo. Os outros clientes também. Mas o espaço entre eles mudava. Ficava denso, preciso.

Quando iam embora, não havia decisão declarada. O pagamento feito sem pressa, um olhar sustentado além do necessário, e isso resolvia tudo. O trajeto até o quarto era sempre curto demais para o que acontecia depois.

Lá dentro, quase não falavam. Ela se movia com a segurança de quem conhece o corpo humano em suas fragilidades. Ele tocava com o cuidado de quem respeita o ritmo das coisas bem feitas. Não havia urgência nem delicadeza ensaiada. Era o encontro direto, sem ornamento. Pele reconhecendo pele.

Depois, às vezes, ficavam acordados. Não para conversar, mas para permanecer. Ele olhando o teto. Ela sentindo a respiração voltar ao próprio ritmo. Outras vezes, dormiam logo, como se aquilo também fizesse parte do acordo.

De manhã, cada um retomava seu lugar no mundo. Ela para corredores claros, vozes ansiosas, mãos que precisavam dela. Ele para salas fechadas, perguntas repetidas, explicações pacientes. Não levavam promessas. Nem despedidas longas.

E à noite, quando o bar os recebia de novo, nada precisava ser combinado. Bastava o reconhecimento imediato, aquele silêncio que se instala quando duas pessoas sabem onde tocar — e, principalmente, onde não é preciso.

Não era secura.
Era economia.

Porque ali os corpos falavam pelas palavras que não eram ditas. Pelo tempo exato de um olhar, pelo gesto contido que prometia sem anunciar, pelo entendimento raro de que certas conversas não pedem voz. Só pele.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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