2026

 

2026

 Ninguém entra em um ano novo ileso.

Atravessa-se. Com o corpo inteiro — e com tudo o que ele já aprendeu a suportar.

Chamam 2026 de ano um.
Como se fosse começo.
Mas talvez seja continuidade em outro tom. Um ano que não pede juventude, pede densidade.

Mudança não é gesto leve. Não é ímpeto. Não é promessa.
Só muda quem sustenta o peso do que viveu. Quem aprendeu a andar com o que perdeu sem transformar isso em desculpa. Há coragem nisso — uma coragem silenciosa, que não se anuncia.

Carregamos números. Muitos.
Anos, datas, marcas invisíveis no corpo e na memória.
E há quem tente se esconder neles, como se o tempo fosse álibi. Como se dizer “já passou” bastasse.
Mas nesse tanto de número que se carrega mora também outra coisa: sabedoria. Não a sabedoria pronta, organizada — mas a que sabe esperar, a que reconhece limites, a que não confunde pressa com vida.

Seria fácil — e talvez covarde — entregar às mãos jovens a tarefa inteira de mudar o mundo.
Como se só a quem carrega poucos números coubesse o risco.
Como se a responsabilidade fosse leve demais para quem já viveu bastante.

Mas quem viveu sabe.
Sabe onde dói. Sabe o que custa. Sabe o que não se deve repetir.
E saber isso não é sinal de cansaço — é matéria-prima.

2026 não pede reinvenção total.
Não exige discursos. Nem grandes gestos.
Talvez peça apenas que cada um não se esconda atrás do próprio tempo.
Que não use o número como escudo. Nem como sentença.

Há mudanças que não fazem barulho.
Elas acontecem enquanto alguém permanece.
Enquanto alguém decide continuar, mesmo sem garantia, mesmo sem aplauso.

E talvez seja isso o que este ano propõe — não um começo limpo, mas um movimento possível.
Sem promessas altas.
Sem finais fechados.
Apenas o tempo aberto, oferecendo espaço para quem ainda tem algo a sustentar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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