Tempos Diferentes

 A casa amanhecia antes dela. A luz das 7h12 parecia saber exatamente onde pousar — primeiro no chão frio, depois no canto da mesa onde ele costumava apoiar os dedos. Ela entrava na cozinha como quem atravessa um território antigo, onde cada objeto guarda uma respiração. A chaleira chiava. Ela ajustava a xícara. Só uma. Mas, sem perceber, afastava levemente a segunda cadeira, como se abrisse espaço para algo que o olhar não alcançava.

Ele também passava por ali — não pela porta, mas pelo costume. Em seu plano, nada tinha peso, mas tudo tinha forma. E a forma dela seguia sendo seu norte. Quando a luz batia no rosto dela, ele se aproximava do brilho, como se ainda pudesse aquecer-se naquele amanhecer de outros tempos.

Ela seguia sua rotina pelas ruas estreitas, onde as árvores tremiam com um vento quase tímido. Caminhava devagar, não por cansaço, mas por atenção: cada canto parecia ter guardado um vestígio dele. No banco da praça, abria sempre o mesmo livro. As páginas avançavam; ela, não. Ficava ali, entre duas linhas, como quem escuta uma voz muito baixa.

No outro plano, ele recolhia cada gesto dela.
Quando ela sorria para um cachorro que abanava o rabo, ele se inclinava sobre o brilho de sua boca, tentando guardar o instante como se fosse possível colecionar luz.
Quando ela suspirava fundo, aquele suspiro atravessava dimensões como um chamado involuntário — e ele respondia aproximando-se, embora ela jamais o percebesse com a clareza dos olhos.

Havia, porém, pequenas brechas.
Uma música que se acendia sozinha no rádio.
Um cheiro de café que insistia em permanecer mesmo depois de ela sair.
Uma cortina que se movia sem vento.
Coisas que ninguém comenta, mas que fazem companhia.

Ao cair da tarde, ela retornava para casa com a sensação de que o dia não coubera inteiro dentro dela. Tirava os sapatos, ajeitava o lençol, tocava o travesseiro do lado vazio — não como quem espera alguém voltar, mas como quem reconhece que certos silêncios têm forma.

Ele, do seu lado invisível, se aproximava desse gesto com reverência. Não podia deitar ali, mas repousava a própria ausência como quem oferece presença. Sabia que havia uma fronteira entre eles — mínima, delicada, quase permeável — e que era justamente essa fronteira que os mantinha ligados.

À noite, ela dormia.
E o sono, generoso, apagava a linha entre os dois mundos.
Ele caminhava pelos contornos de seus sonhos, tocava o contorno de suas sombras, sussurrava memórias que ela acordava achando ter inventado. Mas não se inventa aquilo que permanece.

Viviam em tempos diferentes, sim.
Ela no tempo dos dias contáveis.
Ele no tempo que não se conta.

E, ainda assim, o cotidiano deles se encontrava: no gesto de arrumar a mesa, na página nunca virada, no ventinho leve que mexe uma mecha de cabelo sem motivo.

Não estavam juntos.
Não estavam separados.
Apenas… continuavam — cada um no seu plano, habitando o mesmo amor que se recusava a obedecer à morte.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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