As Três Noites de Ismênia

 

AS TRÊS NOITES DE ISMÊNIA

 

Aos setenta e nove anos, Dona Ismênia já sabia que a noite não chega de uma vez. Primeiro, o mundo escurece pelas bordas. Depois, os objetos ficam mais densos, como se guardassem a respiração. Só então a noite se instala inteira, ocupando a casa com seu passo de quem conhece todos os cômodos.

Naquela semana, porém, a noite parecia ter vindo visitá-la com algum propósito.
Vieram três noites — distintas, silenciosas, insistentes.
E, de algum modo, bastaram.

 

PRIMEIRA NOITE — a do barulho antigo

 

Ismênia estava na poltrona azul quando ouviu o rangido do portão. Era tarde demais para visitas, e cedo demais para lembranças. Mas o som chegou claro, amarrado a um tempo em que o marido voltava do trabalho com o paletó úmido de chuva e o jornal debaixo do braço.

Ela fechou os olhos.
Com eles fechados, viu o que não via há anos.

Viu o passo contido dele nos ladrilhos, o cuidado para não acordá-la, o toque discreto na porta do quarto — aquele pedido silencioso de quem ainda precisava saber se ela estava ali.

Não abriu os olhos. Também não teve medo. Apenas reconheceu o som, como quem reencontra um costume antigo.

Quando o rangido se desfez no ar, murmurou, quase em resposta:

— Eu lembro. Pode entrar devagar.

A casa, satisfeita, voltou ao silêncio.

 

SEGUNDA NOITE — a das palavras guardadas

 

Chovia. A chuva sempre fora companhia para Ismênia, mas naquela noite parecia escrever algo no telhado — um recado que não se deixava entender. Talvez porque não fosse mesmo para ser lido, apenas escutado.

Ela abriu o caderno de capa verde, onde há décadas depositava frases que não disse a ninguém. Não eram confissões. Eram restos de coragem, sentimentos que escaparam pela metade, pensamentos que nunca encontraram destinatário.

Naquela noite, as palavras pareciam maiores que a página.

Com a ponta dos dedos, tocou uma linha escrita muitos anos antes:

“Preciso aprender a ir embora sem fazer barulho.”

Na época, imaginara que se referia a algum amor desgastado.
Agora entendia que falava dela mesma — do desejo de recolher-se sem ferir, da vontade de sumir um pouco para caber de outro jeito.

Fechou o caderno sem pressa, como quem encerra uma conversa que já cumpriu sua função.

 

TERCEIRA NOITE — a do aceno

 

A lua entrou pela janela de modo tímido, quase pedindo licença. Era uma lua fina, dessas que não iluminam: apenas insinuam.

Ismênia acendeu a pequena lâmpada ao lado da cama. Não havia tristeza em si. Não havia alegria. Havia um chamado silencioso, como se algo na casa esperasse a confirmação de um gesto.

Na mesa repousava a fotografia antiga dela com o marido — dois jovens sorrindo com a imprudência de quem acredita que o tempo vai durar. A moldura, desgastada, parecia menor naquela noite. Ou talvez fosse Ismênia que estivesse maior, mais inteira, mais lúcida.

Tocou a foto com a delicadeza de quem toca memória.

— Três noites, meu velho… — murmurou. — Três noites para me lembrar que sigo aqui.

A cortina moveu-se levemente, embora não houvesse vento.
Não era presença. Não era aviso.
Era um aceno — desses que a vida faz quando quer dizer “vai, continua, eu te acompanho no que puder”.

Ela retribuiu, sem pressa.

 

EPÍLOGO

 

Na manhã seguinte, Ismênia abriu as janelas uma a uma.
O sol não tinha pressa. Nem ela.

Caminhou pela casa devagar, como quem recolhe a sombra do próprio nome.
Nada havia se transformado por completo, mas alguma coisa — uma leveza, um entendimento, ou talvez apenas um repouso — encontrara nela um canto para ficar.

E isso bastava para aquela manhã que começava, discreta, como se soubesse que não precisava anunciar nada.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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