Nossas Sombraa

Eles caminham lado a lado há tanto tempo que já não sabem dizer quando começou esse hábito de andar sem se tocar. As sombras, sim, sempre se encontram primeiro. No chão, elas se alongam, se confundem, às vezes parecem uma coisa só. Os corpos seguem paralelos, atentos ao ritmo do passo, à irregularidade da calçada, ao barulho distante da cidade.

Ela percebeu isso numa tarde comum, dessas em que nada pede atenção especial. O sol descia num ângulo oblíquo, dourando fachadas antigas, e as sombras surgiram antes que qualquer pensamento se organizasse. A dela avançava um pouco mais à frente. A dele, ligeiramente atrasada, parecia tentar alcançá-la. Não havia pressa. Apenas esse movimento lento, insistente.

Eles não falam do que pesa. Aprenderam, com o tempo, a conviver com silêncios que não precisam ser preenchidos. As palavras, quando vêm, tratam do necessário: o horário, o caminho, o que falta em casa. O resto fica suspenso, como poeira no ar. O que não se diz ganha corpo na postura, no jeito de desviar o olhar, na pausa antes de responder.

As sombras, porém, não guardam reservas. Tocam-se sem pedir licença. Misturam contornos. Em certos trechos da rua, uma invade a outra, criando uma figura disforme, difícil de reconhecer. Nesses momentos, ela diminui o passo. Ele percebe tarde demais. O desencontro acontece no corpo, não na sombra.

Há coisas que ficaram para trás e coisas que ainda não encontraram nome. Um passado compartilhado que já não cabe inteiro no presente. Um futuro que evita ser desenhado para não decepcionar. Entre um e outro, eles seguem, atentos ao chão, às rachaduras, às pequenas irregularidades que exigem cuidado.

Às vezes, ela pensa que são as sombras que sustentam o que resta. Que sem elas os corpos se afastariam de vez, cada um recolhido à própria solidão. Outras vezes, suspeita do contrário: talvez as sombras apenas denunciem o que os corpos se recusam a admitir.

Quando o sol começa a cair de vez, as sombras encolhem. Perdem definição. Tornam-se manchas breves, quase nada. Eles continuam andando, agora mais próximos, porque a calçada se estreita. Os braços quase se encostam. Ninguém toma iniciativa.

A noite se aproxima sem alarde. E, por um instante curto demais para virar decisão, eles caminham sem sombra alguma.

 

Silvia marchiori buss

 

 

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