Festa de Natal
A família começou a chegar às seis da tarde, horário definido pela avó com a autoridade de quem já enterrou três maridos, criou sete filhos e não admite atraso nem para o fim do mundo. Às seis e cinco, ela já estava na porta, de vestido vermelho brilhante, olhando a rua como quem fiscaliza uma fuga em massa.
O primeiro a chegar foi
o tio Ernesto, trazendo um peru congelado “porque estava em promoção”. O peru
parecia uma arma branca embrulhada em plástico e foi colocado na pia como um
corpo sem identificação. A avó olhou, suspirou e decretou:
— Vai descongelar no micro-ondas. Deus há de entender.
Às seis e quinze, chegou
a prima Carla, recém separada, com um sorriso largo demais para quem garante
estar “ótima”. Veio acompanhada de um namorado novo, cujo nome ninguém
conseguiu decorar porque ele falou baixo e foi interrompido três vezes antes de
terminar a primeira frase. Ficou conhecido como “o moço”.
Às seis e vinte, entrou
a tia Lúcia com uma travessa de maionese que exigia refrigeração imediata e
reconhecimento público. Colocou o prato na mesa e anunciou:
— Fiz sem cebola, pensando na saúde de vocês.
Ninguém lembrava de ter pedido.
Às seis e meia, o clima
já estava tenso o suficiente para dar início à primeira discussão: política ou
vacina. A avó bateu com a colher de pau na mesa e avisou que ali só se
discutiam duas coisas — comida e gente morta. Política ficava para depois da
sobremesa.
O peru, agora
parcialmente descongelado e levemente traumático, foi para o forno. O forno,
por sua vez, resolveu parar de funcionar. Um silêncio respeitoso se formou na
cozinha, quebrado pela avó:
— É assim mesmo. Tudo morre antes da gente.
O tio Ernesto sugeriu
pedir comida. A avó encarou-o como quem olha um herege.
— Natal não se pede. Natal se sofre.
Enquanto isso, o “moço”
tentou ajudar, derrubou a farofa no chão e pediu desculpa em três tempos
verbais diferentes. A prima Carla riu alto demais. O ex-marido dela, que
ninguém lembrava ter sido convidado, apareceu para “buscar o carregador que
esqueceu”. Sentou. Comeu. Opinou.
As crianças começaram a
brigar pelo controle remoto. O cachorro comeu metade do presépio. Alguém chorou
no banheiro. Alguém riu disso. A avó distribuiu tarefas como quem distribui
castigos divinos.
Às nove da noite,
sentaram todos à mesa. O peru saiu do forno meio pálido, mas digno. A maionese
estava quente. A rabanada, dura. O arroz, perfeito — ninguém soube explicar por
quê.
Antes de comer, a avó
pediu silêncio.
— Vamos agradecer.
Ninguém ousou respirar.
Ela agradeceu pela
comida, pela família, pelos vivos, pelos mortos e, especialmente, por ainda
estar ali para juntar todo mundo, mesmo contra a vontade geral.
Depois comeram. Riram.
Cutucaram feridas antigas com cuidado. Brindaram com refrigerante quente.
Tiraram uma foto horrível que seria enviada no grupo da família com a legenda:
“Natal é amor”.
Quando todos foram
embora, a casa ficou em silêncio. A avó recolheu os pratos, sentou-se na
cadeira da cozinha e sorriu sozinha.
— Ano que vem tem de
novo — disse, para ninguém.
E ninguém duvidou.
Silvia Marchiori Buss
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