Ela Vestia Só Perfume
Naquela manhã, ela tirou a roupa sem transformar o gesto em anúncio.
Não havia pressa nem intenção declarada. Apenas o corpo ficando livre, peça por
peça, como quem devolve algo ao seu lugar original.
A água do banho correu
demorada. Escorreu pelos ombros, pelo ventre, pelas pernas, reconhecendo
caminhos antigos. Ao sair, não se apressou em se cobrir. A pele encontrou o ar
com surpresa mansa. Um arrepio curto — não de frio, mas de presença.
O espelho devolveu um
corpo comum, real, sem pedidos. Ela se olhou sem correções. Não havia nada a
esconder nem a oferecer.
Foi então que escolheu o
perfume.
Não para cobrir o que
estava nu — mas para habitar.
Uma gota no pulso. Outra na curva discreta abaixo do seio. Um rastro leve no
pescoço, onde o cheiro se mistura ao pulso da pele. O perfume não era doce nem
tímido. Tinha algo de quente, de baixo, de íntimo. Um cheiro que não se explica
— permanece.
Ela vestiu só perfume.
Saiu assim.
Nua, mas não exposta.
O perfume fazia o trabalho do tecido: criava fronteiras invisíveis. O corpo
caminhava solto, sem peso, sem atrito. O cheiro reagia ao movimento, ao sol, ao
próprio calor. Mudava. Tornava-se pele.
Ninguém viu.
Porque a nudez dela não
pedia olhos.
Estava no modo de andar, na forma de sentar, no gesto simples de cruzar as
pernas sem cautela. Alguns sentiram algo estranho ao passar por ela — um
segundo fora do ritmo, um pensamento interrompido. Não sabiam o motivo. E ela
não precisava saber.
Sentou-se num banco.
Fechou os olhos por um instante. O perfume subia devagar, aquecido pelo corpo.
Não provocava. Ficava.
Quando voltou para casa,
o cheiro já não era o mesmo.
Havia nele a rua, o sol, o tempo passado sem testemunhas. Ela passou a mão pela
própria pele — não para confirmar nada, apenas para sentir.
E deixou o perfume ali,
misturado ao que não tinha nome.
Silvia Marchiori Buss
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