Nem Tão Doidas, Nem Tão Santas
Elas chegaram quase juntas, como se combinassem atrasos. Não combinaram. A mesa já estava posta com xícaras desiguais, um prato de bolachas abertas e um silêncio breve — desses que não constrangem, apenas aguardam.
Lúcia foi a primeira a
falar, como sempre. Não por coragem, mas por hábito. Disse que o ônibus demorou
mais do que o normal e que isso a deixou irritada sem motivo claro. Marta
respondeu que motivo claro é luxo, coisa que só aparece quando a vida está organizada
demais. Riram. Helena mexeu o açúcar no café até dissolver um pouco além do
necessário. Ana chegou por último, trouxe pão quente, e o gesto foi suficiente
para que ninguém comentasse sua ausência.
Elas se conheciam há
tempo demais para apresentações e pouco demais para explicações. O tipo de
convivência que se sustenta no intervalo entre o que se diz e o que se cala.
— Sonhei que estava numa
igreja — disse Marta, com a naturalidade de quem comenta o clima. — Mas era uma
igreja sem santos. Só bancos vazios e uma mulher varrendo o chão.
— E você? — perguntou
Lúcia.
— Eu estava sentada,
esperando não sei o quê.
Helena levantou os
olhos. Não disse nada. Ana partiu o pão com as mãos, como se precisasse sentir
a resistência da crosta.
— Igreja sem santos é
quase um mercado — disse Ana. — As pessoas entram, olham, saem, compram o que
dá.
— Ou um hospital —
completou Lúcia. — Todo mundo entra precisando de algo que não sabe explicar.
Elas se interrompiam com
facilidade, mas sem atropelos. Havia ali uma escuta irregular, cheia de
desvios, que funcionava melhor do que a atenção absoluta. Marta contou que a
filha tinha chorado no banheiro do trabalho e que ela não soube o que fazer,
além de esperar do lado de fora. Helena disse que tinha passado a tarde inteira
tentando escrever um bilhete simples e acabou rasgando todos. Lúcia confessou
que às vezes sente uma vontade quase física de desaparecer por um dia inteiro,
sem dar satisfação a ninguém. Ana ficou quieta por alguns segundos — e, quando
falou, não falou de si.
— A vizinha do terceiro
morreu — disse. — Descobriram ontem. Ficou dias ali, ninguém percebeu.
O café esfriou um pouco.
Marta ajeitou a cadeira. Helena observou uma rachadura fina na parede, como se
ela estivesse crescendo enquanto ninguém olhava.
— Isso acontece — disse
Lúcia, sem defesa. — A gente acha que não vai acontecer com quem mora perto.
— Ou com a gente —
completou Helena.
Ninguém fez sinal da
cruz. Ninguém filosofou. A conversa apenas mudou de direção, como uma rua que
dobra sem aviso. Marta contou uma história antiga, da época em que acreditava
que dar conta de tudo era uma virtude. Ana riu baixo, disse que virtude cansa.
Helena comentou que cansa mesmo, mas que o cansaço também vicia. Lúcia, então,
contou do dia em que chorou no mercado por causa de uma música ruim tocando
alto demais.
— Era só uma música —
justificou-se, tarde demais.
— Nunca é só uma música
— respondeu Marta. — É o que a música encontra.
Elas se levantaram para
buscar mais café. O movimento fez barulho: xícaras, passos, uma colher caindo
no chão. Nada cerimonioso. Nada digno de registro. Helena observou como os
corpos delas se moviam com intimidade suficiente para não pedir licença. Ana passou
a mão no braço de Lúcia ao alcançar o açúcar. Marta encostou o ombro em Helena
ao abrir a janela.
— Está frio — disse
alguém.
— Está — concordaram
todas, em tempos diferentes.
Voltaram à mesa. Lúcia
comentou que sempre esperam delas algum tipo de equilíbrio exemplar. Marta
disse que equilíbrio é uma palavra que costuma vir depois do estrago. Helena
falou da sensação constante de estar falhando num teste que ninguém explicou direito.
Ana, com o pão quase no fim, disse que nunca acreditou em santidade e que
loucura, quando existe, costuma ser um nome mal dado à exaustão.
— Nem tão doidas — disse
Lúcia, como quem testa o som.
— Nem tão santas —
completou Marta.
Helena sorriu sem
mostrar os dentes. Ana concordou, distraída, como se a frase fosse útil, mas
não definitiva.
Elas falaram de
trabalho, de dinheiro, de uma dor antiga no joelho, de um amor que não foi
embora, mas também não ficou. Riram de uma lembrança imprecisa. Discordaram
sobre um filme. Marta levantou a voz uma vez. Helena ficou em silêncio duas
vezes. Lúcia pediu desculpa por algo que ninguém percebeu. Ana disse “deixa”
com a autoridade de quem não quer prolongar.
Quando o dia começou a
escurecer, nenhuma anunciou partida. O tempo foi se reorganizando sozinho. Do
lado de fora, alguém passou falando alto ao telefone. Dentro, as palavras
diminuíram de tamanho.
— Vocês já pensaram —
disse Helena, quase sem ar — que talvez a gente só esteja tentando ficar
inteira por mais um dia?
— Todo dia — respondeu
Ana.
— E dá? — perguntou
Lúcia.
Marta deu de ombros.
— Às vezes dá. Às vezes
não. Mas a gente tenta juntas, e isso muda alguma coisa.
Ninguém confirmou.
Ninguém negou. A mesa ficou ali, com migalhas e xícaras marcadas. Elas também.
Sem pose, sem promessa, sem conclusão. Apenas presentes, como quem sabe que
isso, por ora, basta.
Silvia Marchiori Buss
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