Cada Um No Seu Cada Um

 Naquela rua estreita onde a luz chegava tarde e ia cedo, havia três janelas que pareciam nunca se olhar. Três janelas alinhadas como três notas de uma música que ninguém mais sabia tocar. Atrás de cada uma delas, uma vida contida, recortada, resistente.

Na janela da direita, morava Dona Nísia, que tinha o hábito de guardar silêncios em potes de vidro. Não era hábito recente; viera com ela desde anos que já não dizia em voz alta. Engraxava as tampas, rotulava cada frasco, colocava-os em prateleiras que rangiam de memória. À tarde, quando a casa começava a se estreitar sobre si mesma, ela abria um ou dois potes para arejar o ar. Era um ritual que ela não explicava nem a si mesma.

Na janela da esquerda vivia Seu Ademir, relojoeiro aposentado que nunca conseguiu se aposentar do tempo. A mesa dele era uma geografia de engrenagens, molas, lentes de aumento, panos puídos. Ele ouvia cada tique como se fosse um recado deixado por alguém que tinha partido cedo demais. Não consertava relógios para que voltassem a funcionar — consertava para que não desaparecessem.

No centro, atrás da janela mais discreta da rua, estava Clara, que escrevia cartas para desconhecidos. Não esperava respostas; talvez nem desejasse. As cartas eram uma espécie de lugar onde ela pousava a cabeça quando o dia ficava mais alto do que ela alcançava. Tinha pilhas delas guardadas em caixas antigas, datadas apenas por meses, nunca por anos. Anos, para ela, eram medidas imprecisas demais.

Era uma convivência sem convívio: três vidas alinhadas pela arquitetura, afastadas por tudo o mais.

Mas uma noite, o vento entrou pela rua como quem conhece os atalhos das frestas. Não era furioso, apenas insistente. Tocou as janelas, uma por uma, até que todas se abriram como se tivessem ouvido um chamado comum. Dentro das casas, as coisas que normalmente repousavam começaram a se deslocar: uma tampa de vidro se desprendeu da mão de Nísia, uma carta recém escrita escapou das mãos de Clara, um ponteiro saltou da mesa de Ademir como um peixe fora d’água.

Quando o vento cessou, cada casa tinha perdido e ganhado algo.

 

Na manhã seguinte, cada um encontrou um vestígio alheio.

Dona Nísia recolheu o ponteiro caído em sua varanda. O metal estava gelado, e na madeira havia um risco fino, uma marca que não lhe pertencia. Ela ficou olhando aquele arranhão com a delicadeza de quem observa uma dobra nova no próprio rosto. Sem pensar muito, guardou o ponteiro numa gaveta reservada às coisas que não cabiam nos potes.

Seu Ademir encontrou sobre a bancada a carta de Clara, aberta pelas mãos do vento. Leu-a sem pressa. Não buscava sentido — buscava a vibração que certas palavras deixam no ar quando se recusam a morrer completamente. Dobrando-a com precisão, guardou-a no bolso interno do colete, onde mantinha coisas que não sabia se eram lembranças ou apenas ecos.

Clara encontrou, sobre o parapeito, um frasco de silêncio que nunca tinha visto. Tocou-o com o cuidado que se tem com um objeto que respira. Abriu-o apenas um fio — o suficiente para sentir o peso antigo de uma pausa alheia. Fechou-o antes que se desfizesse. Depois escreveu outra carta, sem destinatário, como quem deixa uma cadeira vazia na mesa para alguém que talvez volte, talvez não.

Nada mais aconteceu.

Nenhum dos três bateu à porta do outro. Não houve devoluções, agradecimentos nem explicações. As janelas permaneceram onde sempre estiveram, fiéis às suas funções de moldura. Mas a rua, aquela rua estreita onde a luz chegava tarde, parecia ter mudado de eixo, como se tivesse recalculado discretamente o próprio centro de gravidade.

Não era mudança grande.
Era deslocamento leve, quase inaudível.
O tipo de mudança que faz uma casa antiga ranger um pouco diferente no fim da noite.

As vidas seguiram — cada uma no seu cada um.
Mas não exatamente no mesmo ponto onde estavam.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

 

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