O Peso Leve das Coisas Que Ficam
A cidade amanheceu coberta por uma névoa baixa, quase à altura dos joelhos. A maioria atravessou o dia sem notar. Ela não. Tinha o costume antigo de perceber o que se move devagar demais para competir com a pressa.
O bonde atrasou dois
minutos. O atraso abriu um intervalo raro. Dentro dele, um homem apareceu,
segurando um guarda-chuva vermelho, imóvel como alguém atento a um som que não
se oferece aos outros. Havia algo no modo como os ombros dele se mantinham — um
ritmo — que ela reconheceu antes mesmo de tentar entender. Não lembrou um
rosto. Lembrou um pulso.
O bonde chegou. Ela entrou.
O homem permaneceu onde estava. O vidro fechou a cena, mas não interrompeu a
sensação.
No trabalho, o ocorrido não
encontrou tradução possível. Não haveria utilidade em contar uma história que
cabe inteira no espaço de um suspiro. Guardou para si. Certas percepções se
desfazem no instante em que tentamos colocá-las em palavras.
Ao fim da tarde, a chave
girou na fechadura sem o atrito habitual. Nada indicava que alguém estivera
ali. Ainda assim, a casa parecia ajustada por uma espécie de cuidado
silencioso. Às vezes o mundo oferece pequenos acertos que não pedem
agradecimento.
A noite chegou sem ruído. A
névoa havia desaparecido, e a rua parecia mais larga, como se houvesse mais ar
entre as coisas. Ela abriu a janela. O vento atravessou a sala com um cuidado
que não precisava se explicar. A cortina ergueu uma dobra suave, quase um gesto
de continuidade.
O que permanece não se fixa
nos objetos. Aparece nos detalhes que costumam ser confundidos com acaso, mas
que insistem na frequência exata de uma lembrança.
O elevador parou no andar
errado, como antigamente.
O vizinho assobiou uma melodia da juventude dela, sem saber.
Um pássaro pousou no parapeito no único segundo em que ela procurava um motivo
para continuar acordada.
A água ferveu num ritmo que dispensava relógio.
O cobertor encontrou seu ombro com uma precisão excessiva para ser apenas
tecido.
Tudo isso formava uma
espécie de corrente contínua — discreta, impossível de comprovar. Uma trama que
não se oferece a explicações, apenas ao reconhecimento silencioso.
Deitada, sem expectativa,
repetiu o movimento dos ombros do homem do guarda-chuva, testando se o gesto
ainda cabia no corpo dela. O encaixe foi natural, como se o gesto não tivesse
desaparecido, apenas mudado de lugar.
O quarto permaneceu quieto,
mas não vazio. Pequenos deslocamentos do mundo mantinham a noite respirando por
dentro, abrindo espaço para que ela respirasse também.
Nada se esclareceu. Nada se
resolveu. A vida seguiu naquela faixa estreita em que costuma seguir quando não
tenta ensinar nada.
É ali que as coisas que
ficam operam: entre o quase imperceptível e o absolutamente necessário.
E ela caminhou dentro dessa
região até que o sono chegasse por conta própria, sem discurso, sem anúncio,
sem ponto final disfarçado de palavra bonita.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário