A Manhã em Que o Propósito Silenciou
Helena despertou como quem retorna de um sonho interrompido.
O quarto tinha a cor opaca das horas que ainda não decidiram se serão dia ou
sombra.
O corpo se levantou por hábito; o espírito, não se sabe.
Na cozinha, a chaleira
começou a gemer antes do previsto,
num som que lembrava metal cansado.
O vapor subia torto, esticando-se como um pensamento que não encontra apoio.
Helena seguiu o desenho da fumaça até ele se desfazer no ar —
essa vocação que tudo tem de desaparecer sem aviso.
No corredor do prédio, o
eco dos passos parecia atrasado.
Lá fora, o frio ainda negociava território com a luz.
A cidade respirava baixo, como se também estivesse poupando esforços.
A moça da banca arrumava as revistas com gestos lentos,
e o cachorro da esquina, sempre impaciente, permanecia sentado,
olhando a rua como quem espera um retorno que já conhece de cor.
No ônibus, Helena encostou
a testa no vidro frio.
As janelas embaçadas davam a impressão de que o mundo se diluía um pouco
antes de chegar aos olhos.
Um menino abriu um caderno e deixou à mostra um sol pintado de verde —
um sol deslocado de toda lógica.
Aquele pequeno desacato ao real lhe pareceu o acontecimento mais honesto da
manhã.
O trabalho exigiu dela
apenas gestos.
Assinaturas, cliques, respostas curtas.
Era possível cumprir tudo sem que nada a atravessasse.
A vida, às vezes, se torna um teatro silencioso: uma sucessão de cenas
em que ninguém sabe exatamente quem está representando.
No intervalo, ela caminhou
até o jardim que ficava atrás do prédio.
As árvores moviam seus galhos como se conversassem entre si
num idioma que o vento traduzia mal.
Helena sentou-se num banco gasto e deixou que o silêncio
lhe ocupasse os ombros.
Foi nesse silêncio — e não
em qualquer tentativa de clareza —
que uma lembrança rompeu a superfície:
o rosto do marido iluminado por uma manhã antiga,
a xícara quente entre as mãos dele,
o modo como sua escuta criava uma espécie de abrigo
para o que nela era disperso.
A lembrança não trouxe
consolo.
Trouxe textura.
Uma presença que, por instantes, sustentou o que o propósito não sustentava
mais.
Quando voltou para dentro,
a sala continuava igual,
mas nela havia um intervalo diferente,
como se o ar tivesse ganhado uma dobra a mais.
Não era esperança.
Era apenas um espaço,
uma folga fina entre o peso e o passo.
À noite, ao chegar em casa,
Helena abriu a janela.
O ar da rua carregava um cheiro de folha úmida e de qualquer coisa ainda por
acontecer,
mesmo que não acontecesse nunca.
Ela se recostou na parede e deixou que a noite entrasse sem pedir autorização.
Não buscava respostas.
Nem um norte secreto.
Apenas reconhecia que seguir não exige sentido —
apenas pulsa.
E a vida, mesmo em silêncio, ainda pulsava em algum lugar que ela não sabia
nomear.
O resto, se viesse, viria
sem pressa.
E, se não viesse, a noite continuaria avançando
do mesmo jeito.
Silvia Marchiori Buss
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