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Mostrando postagens de outubro, 2025

A Moça Que Se Perdeu no Tempo

Ninguém sabia o nome dela. Alguns diziam tê-la ouvido ser chamada de Helena, outros juravam que era Inês, Clara, ou talvez ninguém. O certo é que não parecia pertencer a lugar algum. Chamavam-na de a moça que se perdeu no tempo, e ela parecia aceitar esse destino com a serenidade silenciosa dos que já compreenderam o que não pode ser explicado. Às vezes era vista na plataforma de uma estação antiga, envolta em névoa e apitos de trem. O ferro rangia, as pessoas se abraçavam, os sinos tilintavam, e ela permanecia imóvel, como quem espera algo que não chega, mas também não parte. O bilhete em sua bolsa não tinha data. Quando o bilheteiro, curioso, perguntou se esperava alguém, ela respondeu, sorrindo: — Espero o instante certo. O ar ao redor dela parecia sempre carregar o cheiro de outra época. E o tempo, distraído, se abria para deixá-la passar. Havia o som do vento batendo nas tábuas de uma casa de madeira escura. A manhã nascia preguiçosa, o chão rangia a cada passo, e a moça v...

A Casa Torta Dos Meninos Pretos

A casa parecia respirar. Quando o vento batia, ela se curvava um pouco, como quem escuta um segredo antigo. As janelas, tortas, olhavam o morro com certa melancolia, e o telhado, cansado, guardava o barulho dos passos que um dia dançaram ali. Diziam que a madeira tinha memória — e talvez fosse verdade, porque toda vez que alguém passava em silêncio, a casa respondia com um estalo, um gemido, um som que parecia dizer: “Eu ainda estou aqui.” Foi lá que Marta de Luz criou seus meninos pretos — Bento, Zeca e Tiê — três nomes que nasceram da poeira, da fome e do tambor. Ela os encontrou encolhidos atrás do tronco da mangueira velha, num dia em que o rio secou e o sol parecia castigo. — Venham comigo — disse ela —, que o mundo não sabe cuidar dos que não têm sobrenome. A casa, então, se inclinou um pouco mais, abrindo espaço para eles. Ali, entre paredes que rangiam e um quintal cheio de mamoeiros, Marta lhes ensinou o que o livro não traz: o valor do silêncio, a coragem de exist...

Se Você Não Voltar, Foi Um Prazer Ter Te Conhecido - Conto Infanto Juvenil

  Parte I — O Domingo em que as Sombras Saíram do Castelo   Era um domingo de outono pesado, desses em que o céu da Suíça parece curvar-se sobre as montanhas. As nuvens arrastavam-se baixas, e o vento trazia o cheiro mineral do lago Léman misturado ao perfume ácido das folhas molhadas. Florença e os amigos — Lia, Éric e Matteo — decidiram visitar uma vila antiga, encravada entre colinas e bosques de coníferas. Ouviram falar de um castelo à beira-d’água, Chillon, uma ruína de pedra e lenda. O trem de Lausanne os deixou numa estação de madeira. Dali, seguiram a pé por uma trilha que subia, coberta de musgo, onde o silêncio era tão espesso que o som dos próprios passos soava como profanação. — Se chover, a culpa é tua, Florença — brincou Lia, enrolando o cachecol até cobrir o rosto. — A chuva não me escuta — respondeu ela. — Só obedece a quem tem segredos. Riram, mas o riso se perdeu. As casas de pedra pareciam vigiar o grupo. Nenhum morador à vista, apenas o tilintar d...

Suspirar é Acomodar a Alma

Hoje percebi que tenho suspirado mais. Não é tristeza — é como se algo dentro de mim precisasse se ajeitar, encontrar um canto onde pudesse respirar sem pressa. Um suspiro é isso: o corpo abrindo espaço para a alma se recompor. Há quem diga que alma e espírito são a mesma coisa. Talvez sejam, talvez não. Aqui em Lausanne, entre o frio e o silêncio, tenho pensado que o espírito é o sopro que vem de longe — uma centelha que nos atravessa e nos mantém de pé —, enquanto a alma é o que se forma dentro: o que sente, o que se lembra, o que se fere e se refaz. O espírito é o vento; a alma, a vela que tenta se orientar por ele. Às vezes a alma cansa. Carrega lembranças demais, ausências demais, perguntas que não se calam. É então que vem o suspiro — esse gesto quase invisível que reorganiza o caos por dentro. O suspiro não resolve nada, mas abre uma fresta, um intervalo onde o ar entra e a vida recomeça, mesmo que por segundos. Talvez seja por isso que, quando suspiro, o tempo parece ...

Vou Driblando a Tristeza

Vou driblando a tristeza como quem aprende a dançar com um par que não escolheu, mas que a vida impôs. Ela chega sem aviso, veste-se de silêncio e se senta comigo à mesa, como se fosse parte da rotina. Às vezes aceita o café, às vezes só observa, esperando que eu me distraia para se fazer notar. Quando começo a pensar no vazio que tua ausência deixou, o peito se contrai, e o tempo parece encolher. Mas então eu respiro fundo e deixo que a lembrança faça o seu trabalho de consolo: penso na vida que tivemos, na família que formamos, nos filhos que vieram e nos netos que agora carregam, no olhar, um pouco de ti. Penso na casa — nossa casa — que ainda guarda o som das tuas gargalhadas, o ranger da porta quando chegavas, o modo como a luz da tarde se deitava sobre o sofá onde tantas vezes adormeceste. E penso na nossa cama, que foi refúgio, abrigo, palco e testemunha. Hoje ela me acolhe sozinha, mas ainda há um lado que permanece teu, como se o lençol tivesse aprendido o contorno da t...

"Farinha do Mesmo Saco "

Visitando a casa onde viveu Chaplin, em Vevey, e a de Einstein, em Berna — ambas na Suíça — me peguei pensando no quanto esses dois homens, tão diferentes e ao mesmo tempo tão geniais, me dizem algo essencial: quando alguém se acha superior aos outros, é porque ainda não entendeu a própria pequenez. Chaplin, com seu humor triste e olhar terno sobre o mundo. Einstein, com suas fórmulas e teorias que tentaram decifrar o tempo e o espaço. Dois gigantes. E, no entanto, tão humanos quanto qualquer um de nós. Somos grãos de areia perdidos na imensidão dessa praia chamada universo. Iguais na anatomia, frágeis no destino. O que o ser humano faz para tentar se diferenciar — seja acumulando dinheiro, diplomas, status ou apenas inflando o próprio ego — é, muitas vezes, um esforço vão para disfarçar o medo de ser comum. Mas quando a gente se dá conta de que somos todos “farinha do mesmo saco”, alguma coisa muda por dentro. A vida passa a nos acolher melhor, o olhar amacia, o passo des...

O Porto e o Navio

Ela ficou parada no cais, vendo o navio se afastar. Não era a primeira despedida da vida — mas essa tinha um gosto de injustiça. Não era justo, pensava, deixar a mão de quem a acompanhou por tanto tempo, como se o amor tivesse prazo de validade ou o tempo pudesse medir o que dois corpos construíram lado a lado. O vento trazia o sal das lágrimas e o barulho das cordas soltas. Parecia que tudo ao redor entendia a partida, menos ela. As gaivotas gritavam como testemunhas impotentes, e o mar, cúmplice, levava o que restava de som e coragem. De olhos marejados, ela ainda via — como num filme antigo — as manhãs em que acordavam sem pressa. Ele passava o café, ela ajeitava a mesa, os gestos se encaixavam num silêncio que só os que se amam há muito tempo entendem. Não precisavam de grandes palavras; bastavam olhares, toques, e aquele costume de estarem um no outro. Foram companheiros de todas as travessias — da alegria às tempestades — e, mesmo nos dias em que o amor parecia cansado...

Quando Te Encontrar

Quando o reencontrasse — porque sabia que um dia aconteceria, ainda que o tempo tentasse disfarçar o caminho — ela teria o que dizer. Não falaria de saudade, nem de ausência. Saudade era o que a fazia continuar, o que a mantinha desperta nas madrugadas e a ensinava a conversar com o silêncio. Falaria de amor. Daquele que atravessa o corpo e o que vem depois dele, do amor que não se explica, apenas reconhece. “Quando te encontrar”, diria com a voz calma, “quero que saibas o quanto te amei, te amo e amarei. Não importa onde estivermos — se em um corpo, em um sonho, ou apenas em lembranças — quero que leves contigo, por toda a nossa existência, o saber sereno de que o meu amor foi minha salvação em todas as vidas.” Ela não buscava mais promessas. Já tinham vivido o bastante para entender que o amor verdadeiro não se mede pelo tempo, mas pela permanência no que não se vê. Era uma música que continuava mesmo depois do último acorde, um perfume que persistia no ar, uma vela que teimava ...

O Dia Esqueceu de Nascer

A Noite esperou. Esperou como quem conhece o atraso do amado, mas ainda acredita no reencontro. Deitou-se sobre o mundo com sua calma costumeira, espalhando o manto escuro e as estrelas como quem arruma a casa antes da chegada dele — o Dia. Havia aprendido, ao longo dos séculos, a medir o tempo pela respiração do outro: ela chegava quando ele partia, ele surgia quando ela se despedia. Eram eternos desencontros, e, mesmo assim, um não existia sem o outro. Mas naquela manhã — ou quase manhã — o Dia não veio. Os galos cantaram em vão, o orvalho se acumulou impaciente sobre as folhas, e o lago, órfão de luz, permaneceu frio e opaco. A Noite, silenciosa e calma, ficou. Foi mais serena do que nunca, como se o mundo precisasse descansar um pouco mais dessa correria de horas. Nem os cães latiram. As estrelas brilharam com um certo pudor, temendo acordar o tempo. Ela não se despediu. Ficou ali, vigiando o sono do mundo, como quem protege o lugar do outro, guardando-lhe o espaço. E f...

Quando o Sol se Levanta Sobre o Léman

Todas as manhãs, ao despertar, ela pensava: “mais uma noite passei sem você.” Lá fora, o sol, pontual como sempre, se erguia sobre o céu de Lausanne, banhando de ouro o espelho tranquilo do lago. O Léman respirava junto com a cidade — um sopro lento, quase humano — e ela, imóvel diante da janela, deixava que a luz tocasse o rosto ainda úmido de lembranças. A vida seguia com a precisão habitual: o ruído metálico dos bondes, o tilintar das bicicletas nas ladeiras, o murmúrio dos cafés que se abriam. Mas dentro dela o tempo não obedecia a relógios. Andava em círculos, feito quem caminha num quarto pequeno procurando uma saída que não existe. O cenário era o mesmo — o lago, o sol, as montanhas ao fundo — mas havia um vazio que nada preenchia. A cadeira ao lado continuava posta, o café era servido em duas xícaras, como se o gesto pudesse, por si só, restabelecer uma presença. Falava sozinha às vezes. Um “bom dia” murmurava o suficiente para se ouvir viva. Noutras, o silêncio bastava...

O Tempo das Conexões

Às vezes a gente se frustra. Planeja, organiza, sonha... tudo alinhado, tudo pronto. E de repente — nada acontece. A reunião cai, a viagem é adiada, a pessoa não chega, o momento não vem. E a sensação é de que o universo está brincando com a gente, testando a nossa paciência. Mas não é bem assim. Existe algo que a ciência já estuda com seriedade: a conexão entre corpo, mente e universo. Não é misticismo, é física. As partículas se comunicam, os campos se alinham, e o tempo — aquele mesmo que a gente tenta dominar — tem sua própria precisão. Nada acontece fora do tempo certo. E esse “tempo certo” não é o da agenda, nem o do relógio de pulso, nem o das nossas urgências emocionais. É o tempo da sincronia. O instante em que a energia do que você deseja se conecta à energia do que o universo pode oferecer. Quando essa conexão ainda não está formada, pode insistir o quanto quiser — não flui. É como tentar acender uma lâmpada sem corrente elétrica: há intenção, há estrutura, m...

Quando a Alma Precisa Descansar

  Tem dias em que a gente acorda cansado, mesmo depois de uma longa noite de sono. As horas passaram, o corpo repousou, mas a alma… a alma continuou desperta. Ficou vasculhando lembranças, abrindo gavetas antigas, tentando ajeitar o que ainda dói. E quando a alma não dorme, amanhecemos exaustos — não é o corpo que pesa, é o coração. A alma é como uma criança teimosa: não aceita o “agora chega”, não entende o “amanhã melhora”. Ela quer respostas imediatas, quer sentido nas ausências, quer descanso no meio do turbilhão. Mas alma cansada não se cura com travesseiro macio, nem com mais horas de sono. Ela precisa de silêncio, de ar, de pausa. Precisa que a gente a ouça. Talvez descansar a alma seja deixar de lutar contra o que já foi. Aceitar que há perguntas sem resposta, caminhos sem volta, histórias que se encerram mesmo que a gente não queira. E que está tudo bem parar por um tempo. Fechar os olhos e apenas respirar. Porque tem dias em que o melhor remédio é o nada. ...

" Made in Haven" - Feito no Céu

  Dizem que, quando duas faíscas se reconhecem, o universo prende a respiração por um instante. Foi o que aconteceu quando os olhos deles se cruzaram — não por acaso, mas como quem se reencontra num desvio secreto do tempo. Nenhum dos dois procurava nada. A tarde era comum, o ar pesado, o dia sem história. E, no entanto, algo se deslocou, silencioso, quase imperceptível. O instante parecia carregado demais para caber dentro do mundo. Ela parou primeiro. Não sabia por quê. Apenas sentiu o corpo suspenso entre o antes e o depois, como se tivesse ouvido um chamado sem som. Ele hesitou. Por um segundo, pensou ter sonhado. Mas o olhar dela o atravessou com a delicadeza de quem acende uma memória esquecida. Era uma vertigem conhecida, um eco distante — o tipo de lembrança que não se sabe se é lembrança ou profecia. Ficaram ali, imóveis, sem sorriso, sem palavras. Havia algo de antigo naquele silêncio, algo que escapava do real. Talvez uma história que nunca terminou. ...

A Alma Pede Licença

A alma, cansada, sentou-se à beira do tempo. Não era ainda o fim, mas também já não era o começo. Estava ali — entre o que partiu e o que restou. Fazia tanto tempo que doía, que a dor se tornara sua segunda pele. Uma roupa que vestia todos os dias, mesmo quando tentava trocá-la por sorrisos emprestados ou por alguma distração que a vida ainda teimava em oferecer. A dor do amor perdido já não gritava; sussurrava em tom grave, lembrando-a de que amar tanto assim tem sempre um preço. Ela já não sabia mais o que era viver sem dor. Tudo parecia ter a marca dele — o travesseiro, o vento, o café que esfriava devagar. Era como se o mundo inteiro houvesse aprendido a conjugar o verbo “sentir falta”. Mas, naquela manhã em que o sol demorou a nascer, algo dentro dela fez um gesto tímido. A alma, exausta, se aproximou da dor e, com uma humildade antiga, pediu licença. — Eu sei que vieste por amor — disse. — Sei que me guardaste nos teus braços enquanto tudo desabava. Foste abrigo quando...

Quando o Tempo Parou de me Ouvir

  Tentei falar com o tempo. No início, ele respondia — com o bater leve das cortinas, o ranger do portão, o relógio que atrasava de propósito, como quem faz charme antes de partir. Mas um dia, ele se calou. Não sei ao certo quando isso começou. Talvez no mesmo instante em que o café esfriou e eu não percebi. Ou quando teu casaco ficou esquecido na cadeira e o vento, generoso, soprou teu cheiro de volta pra mim. De repente, as horas deixaram de me obedecer. O vapor do café não subia, apenas pairava. O relógio da parede parou entre o sete e o oito, como se tivesse esquecido o caminho. O vento — sempre ele — repousou nas árvores, e até os pássaros ficaram suspensos, presos na respiração do instante. Foi quando percebi: o tempo tinha parado. Não por falha, mas por cansaço. Talvez estivesse exausto de nos ver correr sem direção, de medir amores que não resistem a um inverno, de contar dias que não cabem mais na pele. Talvez tenha parado por piedade — para que eu, enfim, t...

" Deixa eu Querer Voar"

Porque às vezes o chão é pesado demais, e o corpo se cansa de sustentar o próprio peso. Há dias em que tudo o que se quer é altura — um pouco de espaço entre o coração e o mundo. “Deixa eu querer voar.” Não pra fugir, mas pra alcançar o que me dói. As dores, quando vistas de cima, perdem a arrogância. Lá do alto, elas são apenas sombras pequenas em movimento, lembranças passageiras que o vento dissolve com paciência. Talvez eu voe torto, talvez nem saia do lugar. Mas o simples gesto de abrir as asas já muda alguma coisa em mim — é como se o ar me reconhecesse e me devolvesse um pouco do que esqueci: o impulso. Há tanto peso nas coisas simples — nas palavras ditas e nas que se engasgam, nos silêncios, nas promessas que ficaram pela metade. Mesmo assim, dentro de mim, algo insiste em se erguer. É um sopro, um tremor leve, um quase — mas é o bastante pra começar. Então eu subo. Não sei se o voo é real ou lembrança. Talvez seja só o pensamento que, cansado de rodar em círculos, e...

O Início e o Fim

O nascimento é anunciado, planejado, esperado. Há festa, nome escolhido, enxoval preparado, sorrisos que se abrem antes mesmo do primeiro choro. Tudo é movimento, expectativa, esperança. A vida, nesse instante inaugural, é recebida como milagre e promessa. A morte, ao contrário, não avisa. Não marca dia nem hora. Chega como quer, às vezes silenciosa, às vezes brutal, sem se importar com a agenda, o relógio ou os planos. Sabemos que virá — e mesmo assim fingimos não saber. É a única certeza que preferimos guardar no fundo da gaveta, escondida sob as urgências do cotidiano. Vivemos como se houvesse sempre um depois: depois eu ligo, depois eu perdoo, depois eu viajo, depois eu amo. Mas o depois é um território instável — pode nem existir. Entre nascer e morrer, há esse intervalo frágil que chamamos de vida. E é nele que deveríamos dançar — mesmo sem música, mesmo sem chão. Afinal, se o início é celebrado e o fim é inevitável, talvez o segredo esteja em honrar o meio: o instante...

Coisas Boas e Ruins Vêm de Mãos Dadas

  A vida não tem o menor pudor em misturar o que sentimos. Ela chega sem avisar, trazendo flores numa mão e espinhos na outra. E é quase sempre assim — o perfume e a dor caminhando lado a lado, sem cerimônia, sem intervalo. Aprendemos cedo que não dá pra separar tudo em prateleiras: o certo e o errado, o belo e o feio, o riso e o choro. Eles convivem, se confundem, trocam de lugar quando o dia muda de humor. Às vezes, a alegria vem embrulhada num susto; outras, é a dor que traz um novo sentido, uma fresta de luz por onde a esperança insiste em entrar. Coisas boas e ruins vêm de mãos dadas — e talvez seja esse o segredo mais simples e mais difícil de aceitar. Não há como escolher só um lado da moeda, porque ambos fazem parte da mesma sorte. A chuva que atrapalha o passeio também rega o jardim. O fim que dói abre espaço para o recomeço. A saudade que aperta é a prova do amor que existiu. O tempo, sábio e paciente, vai nos ensinando a não brigar tanto com os contrastes. A compr...

Quando o Vento Voltar

O vento chegava sempre antes das lembranças. Soprava pelas frestas da casa, erguendo cortinas, acordando papéis esquecidos, e trazia com ele um rumor antigo — um som que Elisa reconhecia sem precisar entender. Era o mesmo som que acompanhara Miguel nos últimos dias, quando já não havia mais palavras, apenas o ar entre eles. Desde então, ela não perguntava “por quê?”, mas “quando?”. Quando voltaria a senti-lo. Quando o silêncio deixaria de doer. Quando o vento traria alguma resposta. Naquela manhã de setembro, a praça estava coberta de folhas. Elisa caminhava devagar, sem rumo, como quem busca o próprio tempo. Sentou-se no banco de sempre — aquele onde Miguel lia o jornal dobrado em quatro, enquanto ela fingia desenhar no caderno. Era ali que o mundo parecia caber dentro de uma rotina simples e feliz. Agora, só o vento lhe fazia companhia. Uma folha desprendeu-se da árvore e pousou sobre o colo dela. Não trazia nenhuma mensagem, apenas o som seco de algo que se despede. ...

" Deixa Eu Dizer Que Te Amo"

  Ele sempre acreditou que o amor tinha som. Não o som óbvio das palavras declaradas, mas um rumor secreto, escondido em pequenos gestos. Era assim com ela: cada riso fora de hora era um acorde, cada silêncio prolongado, um refrão não escrito. Amava-a de longe, mesmo quando estavam perto. Não era distância física, era o cuidado de não atravessar a linha tênue que separa o afeto da ousadia. Por isso, colecionava instantes. Um deles aconteceu numa manhã de inverno, quando se encontraram num café pequeno, protegido pelas vidraças embaçadas. Ela escolheu a mesa perto da janela e pediu chocolate quente. Enquanto falava, distraída com qualquer assunto que pouco importava, ele a observava. Não por falta de atenção ao que ela dizia, mas porque cada detalhe parecia mais eloquente que as palavras. Ela levava a xícara aos lábios devagar, assoprava o vapor e então tomava um gole. Para ele, aquele gesto simples repetia um ritual secreto. A cada vez que os dedos dela tocavam a porcelana, ...

Entre o Rascunho e o Mistério

  Pelas lindas ruas de Lausanne, encontro caminhos e parques que parecem não ter fim. Há algo de silencioso e sagrado em caminhar por essas ladeiras — como se cada pedra, cada janela, cada sombra que desliza pelos muros soubesse mais da vida do que eu. Então me pego a pensar que toda essa beleza não surgiu do acaso. Foi criada. Alguém, em algum tempo, sonhou com isso. Um artista, um arquiteto, um jardineiro, um pedreiro... mãos humanas e “não humanas” moldaram o cenário que hoje me acolhe. E, ao pensar nisso, percebo o quanto o ser humano é também uma obra. Uma criação minuciosa, desenhada com cuidado, cheia de engrenagens invisíveis e mistérios que nem a ciência consegue traduzir por completo. É impossível acreditar que tamanha precisão, tamanha delicadeza, tenha sido feita apenas para se desfazer no tempo. Seria um desperdício imenso criar uma criatura capaz de amar, chorar, recordar e imaginar — e depois apagá-la como se nunca tivesse existido. Não, eu não posso crer nisso. ...

Ventos Que Invento

Pelo certo, e pelo tanto já vivido, eu deveria me acomodar na brisa mansa que me envolve. Deveria aceitar o sossego como prêmio, o silêncio como descanso, e a calmaria como destino natural de quem já atravessou tantas tempestades. Mas não. Mesmo com a saudade rasgando o corpo e a alma, mesmo com as feridas ainda abertas, latejando em silêncio, há algo em mim que se recusa a parar. Prefiro inventar ventos novos. Quase ventanias. Ventos que desarrumam o que parecia em ordem, que me arrancam do lugar onde o costume quer me prender. São ventos que pedem força — e força eu busco no que ainda me resta: nas mitocôndrias cansadas, nessas pequenas usinas que moram em mim e insistem em acender luz mesmo quando tudo parece escuro. Elas me sustentam, mesmo exaustas. Elas me empurram, mesmo quando o corpo pede trégua. Invento ventos para continuar me costurando. Ponto a ponto, remendo o que rasgou, ajusto o que sobrou. Cada novo sopro é uma chance de renascer um pouco, ainda que com ...

O Tempo Entre Nós

Não era o vento, nem o silêncio — era o tempo que separava os dois. Um tempo morno, feito de lembranças que ainda respiravam entre as frestas da casa. Ela acordava sempre um pouco antes das sete. O corpo, teimoso, seguia a rotina antiga: café forte, duas xícaras sobre a mesa, uma cheia, outra esperando. Havia dias em que quase dizia o nome dele — mas o som morria no ar, como se a própria voz respeitasse o vazio. As cartas que não enviou se empilhavam dentro de uma caixa de sapatos. Em cada uma, o mesmo começo: “Não sei se ainda te escrevo do mesmo tempo.” Ela o imaginava em outra cidade, outro relógio, talvez outro amor. Mas sempre o imaginava. Havia nisso uma fidelidade estranha — como se o pensamento fosse o último fio que os mantinha ligados. Nos fins de tarde, o reflexo do sol entrava pela janela e riscava o chão em faixas douradas. Ela chamava aquele instante de “entretempo”. Era ali, entre o que já escurecia e o que ainda brilhava, que sentia a presença dele. ...