Quando Te Encontrar
Quando o reencontrasse — porque sabia que um dia aconteceria, ainda que o tempo tentasse disfarçar o caminho — ela teria o que dizer.
Não falaria de saudade, nem de ausência. Saudade era o que a fazia continuar, o
que a mantinha desperta nas madrugadas e a ensinava a conversar com o silêncio.
Falaria de amor. Daquele que atravessa o corpo e o que vem depois dele, do amor
que não se explica, apenas reconhece.
“Quando te encontrar”,
diria com a voz calma, “quero que saibas o quanto te amei, te amo e amarei. Não
importa onde estivermos — se em um corpo, em um sonho, ou apenas em lembranças
— quero que leves contigo, por toda a nossa existência, o saber sereno de que o
meu amor foi minha salvação em todas as vidas.”
Ela não buscava mais
promessas. Já tinham vivido o bastante para entender que o amor verdadeiro não
se mede pelo tempo, mas pela permanência no que não se vê. Era uma música que
continuava mesmo depois do último acorde, um perfume que persistia no ar, uma vela
que teimava em reacender mesmo quando o mundo escurecia.
Às vezes, caminhava pelas
ruas e jurava sentir a presença dele. Um toque breve no ombro, um sopro leve na
nuca, um cheiro de vento que vinha de repente, como se o universo se abrisse
por um instante para lembrá-la de que nada termina.
Outras vezes, ele vinha em sonho — não jovem nem velho, apenas ele, inteiro.
Sentava-se ao seu lado e olhava-a como quem diz “estou aqui”. E ela acordava
com a alma em paz, mesmo que o travesseiro ainda guardasse o sal das lágrimas.
O tempo, ela aprendeu, não
cura — ensina a carregar. E ela carregava aquele amor com a delicadeza de quem
leva uma chama no peito: protegida das ventanias, mas viva.
Nos dias mais difíceis, escrevia o nome dele em pedaços de papel, como se o
gesto fosse um modo de continuar o diálogo. Em cada letra, deixava um sopro de
gratidão: por ter vivido com ele, por ter amado, por ter sido salva.
Sabia que o reconheceria,
quando o encontro acontecesse. Mesmo que os rostos tivessem outras formas,
mesmo que as vozes soassem em outro idioma, o olhar seria o mesmo — aquele
breve espelho onde ela se via inteira.
Enquanto esperava,
caminhava leve. Não por falta de dor, mas porque aprendera a transformá-la em
presença. O amor agora era vento, era estrela, era o som das folhas quando o
outono começava.
E quando finalmente o encontrasse — fosse num sonho, num outono de outra era,
ou num amanhecer que não terminasse — não precisaria dizer mais nada.
Bastaria o olhar.
E ele entenderia, como sempre entendeu...
Silvia Marchiori Buss
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