O Início e o Fim

O nascimento é anunciado, planejado, esperado.

Há festa, nome escolhido, enxoval preparado, sorrisos que se abrem antes mesmo do primeiro choro. Tudo é movimento, expectativa, esperança. A vida, nesse instante inaugural, é recebida como milagre e promessa.

A morte, ao contrário, não avisa. Não marca dia nem hora.
Chega como quer, às vezes silenciosa, às vezes brutal, sem se importar com a agenda, o relógio ou os planos. Sabemos que virá — e mesmo assim fingimos não saber. É a única certeza que preferimos guardar no fundo da gaveta, escondida sob as urgências do cotidiano.

Vivemos como se houvesse sempre um depois: depois eu ligo, depois eu perdoo, depois eu viajo, depois eu amo.
Mas o depois é um território instável — pode nem existir.

Entre nascer e morrer, há esse intervalo frágil que chamamos de vida.
E é nele que deveríamos dançar — mesmo sem música, mesmo sem chão.
Afinal, se o início é celebrado e o fim é inevitável, talvez o segredo esteja em honrar o meio: o instante que respira entre o primeiro e o último suspiro.

Porque nascer é apenas o começo,
e morrer, talvez, não seja o fim —
mas o retorno silencioso de quem um dia foi festejado por chegar.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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