O Porto e o Navio

Ela ficou parada no cais, vendo o navio se afastar.

Não era a primeira despedida da vida — mas essa tinha um gosto de injustiça.
Não era justo, pensava, deixar a mão de quem a acompanhou por tanto tempo, como se o amor tivesse prazo de validade ou o tempo pudesse medir o que dois corpos construíram lado a lado.

O vento trazia o sal das lágrimas e o barulho das cordas soltas.
Parecia que tudo ao redor entendia a partida, menos ela.
As gaivotas gritavam como testemunhas impotentes, e o mar, cúmplice, levava o que restava de som e coragem.

De olhos marejados, ela ainda via — como num filme antigo — as manhãs em que acordavam sem pressa.
Ele passava o café, ela ajeitava a mesa, os gestos se encaixavam num silêncio que só os que se amam há muito tempo entendem.
Não precisavam de grandes palavras; bastavam olhares, toques, e aquele costume de estarem um no outro.
Foram companheiros de todas as travessias — da alegria às tempestades — e, mesmo nos dias em que o amor parecia cansado, continuavam ali, de mãos dadas no mesmo barco.

Agora, o barco se tornara metáfora.
O navio que partia levava um pedaço dela junto — e deixava outro, inteiro, no cais.
A injustiça não estava apenas na ausência, mas na continuidade: o mundo seguiria, e ela teria que aprender a andar sem o ritmo das passadas dele ao lado.

Ela sentia medo.
Medo do silêncio da casa, das cadeiras vazias, do lençol que sobrava.
Medo do tempo que viria sem a presença dele preenchendo os intervalos.
E raiva — uma raiva mansa, doída, que misturava amor e impotência.
Raiva de não ter podido embarcar junto, de não ter podido impedir a partida.
Raiva da vida, que segue, mesmo quando o coração quer parar.

Ficou ali, sozinha no porto, vendo o navio se tornar ponto, depois traço, depois nada.
E pensou em quantas vezes ele a esperou voltar, pacientemente, quando ela se perdia dentro de si mesma.
Agora era ela quem esperava — não um retorno, talvez, mas um sinal.
Um vento que soprasse o nome dele de volta, uma lembrança viva que a fizesse sorrir sem culpa.

Não se larga a mão de quem caminhou contigo por tanto tempo.
Mesmo que o corpo vá, mesmo que o mar leve, mesmo que o navio desapareça no horizonte — a alma continua de mãos dadas.
Ela sabia disso.
Sabia, mas doía do mesmo jeito.

E enquanto o mar devolvia apenas espuma e silêncio, ela se deu conta:
o amor verdadeiro não termina — apenas muda de porto.
E ela ficaria ali, entre o medo e a saudade, entre a raiva e a ternura,
esperando o dia em que o horizonte lhe devolvesse, nem que fosse em sonho,
o som do motor do navio — o último eco do que foram.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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