" Deixa Eu Dizer Que Te Amo"

 Ele sempre acreditou que o amor tinha som.

Não o som óbvio das palavras declaradas, mas um rumor secreto, escondido em pequenos gestos. Era assim com ela: cada riso fora de hora era um acorde, cada silêncio prolongado, um refrão não escrito.

Amava-a de longe, mesmo quando estavam perto. Não era distância física, era o cuidado de não atravessar a linha tênue que separa o afeto da ousadia. Por isso, colecionava instantes.

Um deles aconteceu numa manhã de inverno, quando se encontraram num café pequeno, protegido pelas vidraças embaçadas. Ela escolheu a mesa perto da janela e pediu chocolate quente. Enquanto falava, distraída com qualquer assunto que pouco importava, ele a observava. Não por falta de atenção ao que ela dizia, mas porque cada detalhe parecia mais eloquente que as palavras.

Ela levava a xícara aos lábios devagar, assoprava o vapor e então tomava um gole. Para ele, aquele gesto simples repetia um ritual secreto. A cada vez que os dedos dela tocavam a porcelana, ele imaginava que estava ouvindo: eu te amo. Quando os olhos dela se perdiam por um instante no movimento da rua lá fora, ele completava em silêncio: eu também.

Era um diálogo mudo, inventado apenas por ele, mas que lhe bastava para seguir vivendo naquela ilusão doce de estar próximo do que nunca ousava pedir.

Amor, para ele, era isso: um teatro invisível, uma música que só ele escutava.

Às vezes pensava que jamais diria. Que bastava essa coleção de cenas guardadas — o riso dela, a distração com os livros, o cabelo preso às pressas, a xícara encostada nos lábios. Mas, noutras vezes, o coração reclamava, como se fosse injusto viver apenas na margem.

Foi assim que, numa noite qualquer, caminhando lado a lado, a frase escapou. A cidade estava refletida no rio, as luzes se dissolvendo em mil fragmentos de cor, e ele não resistiu mais:

— “Deixa eu dizer que te amo”.

Ela parou. O olhar demorou um instante a encontrá-lo. Não houve resposta. Apenas um silêncio que parecia mais cheio do que todas as palavras que poderiam ter sido ditas.

E seguiram. O vento continuou soprando, as águas correndo, mas dentro dele ficou a sensação de que, em algum lugar secreto, ela também tinha ouvido — como naquela manhã do café, quando cada gole já era, para ele, uma confissão.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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