A Moça Que Se Perdeu no Tempo

Ninguém sabia o nome dela. Alguns diziam tê-la ouvido ser chamada de Helena, outros juravam que era Inês, Clara, ou talvez ninguém.

O certo é que não parecia pertencer a lugar algum. Chamavam-na de a moça que se perdeu no tempo, e ela parecia aceitar esse destino com a serenidade silenciosa dos que já compreenderam o que não pode ser explicado.

Às vezes era vista na plataforma de uma estação antiga, envolta em névoa e apitos de trem. O ferro rangia, as pessoas se abraçavam, os sinos tilintavam, e ela permanecia imóvel, como quem espera algo que não chega, mas também não parte. O bilhete em sua bolsa não tinha data. Quando o bilheteiro, curioso, perguntou se esperava alguém, ela respondeu, sorrindo:
— Espero o instante certo.

O ar ao redor dela parecia sempre carregar o cheiro de outra época. E o tempo, distraído, se abria para deixá-la passar.

Havia o som do vento batendo nas tábuas de uma casa de madeira escura. A manhã nascia preguiçosa, o chão rangia a cada passo, e a moça varria o alpendre, cercada pelo cheiro de café recém passado e pelas vozes do campo. Uma horta pequena respirava manjericão, hortelã e chuva da noite anterior. No canto, um galo insistia em anunciar um amanhecer que parecia ter se atrasado. O marido já saíra para o trabalho, o filho dormia sob um cobertor de lã. O relógio de pêndulo marcava 17h15, embora o sol ainda brilhasse alto. O ponteiro tremia, indeciso, e ela parou a vassoura, encostando a testa na vidraça. Lá fora, o horizonte dissolvia-se em luz dourada. Então ouviu — ou imaginou ouvir — um apito distante. Um trem, pensou, mas não havia trilhos por ali. Um arrepio subiu-lhe a espinha, e o cenário, com o cheiro de café e terra, desfez-se como fumaça.

O ar agora cheirava a pólvora. O céu era um cinza doente. Dentro de uma tenda de campanha, a moça de uniforme cinza limpava o rosto de um rapaz ferido, mal saído da infância. As lamparinas oscilavam, o vento gemia nas frestas, e o solo tremia sob o avanço dos tanques. Ela segurava a fotografia amarelada de uma casa simples, de madeira, e a observava com ternura, como quem reconhece algo que ainda não viveu. Um médico gritou um nome, o dela talvez, mas ela não respondeu. O sino da igreja próxima tocou, e quando o som terminou, já não estava mais lá.

Agora havia o perfume da primavera e o rumor das ruas cheias. A moça caminhava entre cartazes pintados à pressa, vozes exaltadas, tinta fresca e fumaça de cigarros. Paris respirava revolta e juventude. Ela sorria, misturada à multidão que gritava “liberté!” com os punhos erguidos. O vento brincava com seus cabelos, e um rapaz, de rosto luminoso, lhe ofereceu um cigarro.
— De onde você vem? — perguntou ele, rindo.
Ela soprou a fumaça e respondeu:
— De um lugar que ainda não aconteceu.
Riram juntos. Caminharam até a margem do Sena, onde as luzes tremiam na água. Quando o rapaz tentou beijá-la, o mundo pareceu girar sobre si, e seus lábios tocaram apenas o ar. A moça desaparecera.

Veio então o calor denso de uma cidade grande, o som confuso de buzinas, o cheiro de gasolina e café. Dentro de uma livraria de esquina, o ventilador girava preguiçoso, espalhando o perfume antigo do papel. Os livros empilhados formavam pequenas montanhas de lembrança. A moça, agora com olhos cansados e gestos serenos, arrumava uma vitrine. Um homem de terno cinza entrou, folheou um livro e perguntou:
— Esse fala sobre o tempo?
— Todos falam — respondeu ela. — Só mudam as palavras.
Ele sorriu, pagou e foi embora. Ela o seguiu com o olhar, certa de reconhecer naquele rosto o mesmo rapaz de outra vida, de outra cidade. Mas o trânsito o engoliu. E o relógio da parede parou, mais uma vez.

O mundo ao redor parecia sempre recomeçar, e ela, sempre no meio do instante. As estações mudavam, mas o tempo dentro dela era o mesmo — um corredor de ecos.

Agora o ar era frio. O vento trazia cheiro de folhas e campainhas distantes. O céu refletia uma claridade pálida, e ela observava a água imóvel de um lago grande e silencioso. Na mesa, um livro aberto, rabiscado em muitas caligrafias — todas suas. O relógio, imóvel, marcava sempre a mesma hora. Às vezes, via no vidro da janela rostos que a olhavam de dentro: a mulher de lenço na cabeça, a enfermeira, a jovem com cartaz, a livreira. Todas lhe sorriam com ternura.
— Ainda não é hora — dizia uma voz.
— Eu sei — respondia. — Mas está perto.

Naquela noite, sentou-se num banco de ferro, coberta por um xale. O lago respirava uma calma antiga. O vento sussurrou um nome — talvez o dela, talvez nenhum. Do outro lado, uma mulher de manto escuro se aproximou.
— Enfim te encontrei — disse a estranha.
— Quem é você?
— Sou o tempo que te esperou.
Ela sorriu, sem medo.
— Demorou.

A mulher estendeu a mão. A moça a segurou, e o ar pareceu se curvar, como se o próprio mundo fizesse uma reverência. O relógio em seu pulso parou. O lago refletiu todas as suas vidas — o alpendre de madeira, a tenda de guerra, a ponte sobre o Sena, a livraria iluminada pela luz amarela da rua. Tudo se dissolveu numa única claridade.

Quando o vento soprou, a moça se desfez como névoa.

Na manhã seguinte, o relógio da estação voltou a funcionar.
Marcava 19h03.

E desde então, dizem, o tempo caminha com um passo mais leve.
Talvez porque, enfim, tenha encontrado onde descansar: no silêncio da moça que se perdeu — e se encontrou — em todos os tempos.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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