Se Você Não Voltar, Foi Um Prazer Ter Te Conhecido - Conto Infanto Juvenil

 Parte I — O Domingo em que as Sombras Saíram do Castelo

 Era um domingo de outono pesado, desses em que o céu da Suíça parece curvar-se sobre as montanhas. As nuvens arrastavam-se baixas, e o vento trazia o cheiro mineral do lago Léman misturado ao perfume ácido das folhas molhadas.

Florença e os amigos — Lia, Éric e Matteo — decidiram visitar uma vila antiga, encravada entre colinas e bosques de coníferas. Ouviram falar de um castelo à beira-d’água, Chillon, uma ruína de pedra e lenda.

O trem de Lausanne os deixou numa estação de madeira. Dali, seguiram a pé por uma trilha que subia, coberta de musgo, onde o silêncio era tão espesso que o som dos próprios passos soava como profanação.

— Se chover, a culpa é tua, Florença — brincou Lia, enrolando o cachecol até cobrir o rosto.
— A chuva não me escuta — respondeu ela. — Só obedece a quem tem segredos.

Riram, mas o riso se perdeu. As casas de pedra pareciam vigiar o grupo. Nenhum morador à vista, apenas o tilintar distante de um sino e o rasgo do vento.

Quando alcançaram o castelo, viram o portão de ferro entreaberto, o fosso coberto de neblina, a ponte de madeira úmida, o aviso corroído: INTERDIT D’ENTRER.

E, à frente, três pessoas.
Uma mulher de chapéu preto e véu de renda, Madame Rousseau, falava em francês antigo; um rapaz alto de olhos acinzentados, Kurt; e uma moça pálida, de cabelo trançado, Annelise.
Eles caminhavam devagar, como se o tempo ao redor fosse outro.

— Estranho, eu não os vi no trem — sussurrou Éric.
— Talvez nunca tenham saído daqui — murmurou Florença.

Quando ela piscou, o trio havia desaparecido.

Dentro, o castelo respirava mofo e sal. Paredes úmidas, sombras imóveis, o chão rangendo como se reconhecesse passos antigos. Florença notou uma fenda sob a escada de pedra — uma abertura estreita demais, de onde soprava um ar frio com cheiro de ferro.

— Não entra aí, Florença — avisou Matteo. — Parece um cárcere.
— É exatamente por isso que quero entrar.

Entrou. O corredor se estreitava até tocar seus ombros. A luz do vitral rachado projetava cores mortas no piso. Um som indistinto — respiração, lamento ou vento — acompanhava os passos.

Do lado de fora, Lia olhava o relógio, Éric tentava sinal no celular, Matteo assobiava. Quando Florença voltou, o olhar dela era distante:
— Só um quarto… vazio. Mas juro que alguém respirou perto de mim.

Riram. O riso ecoou oco. Atrás dela, Lia viu sombras alongadas — quatro, seis, oito — movendo-se em descompasso com a luz.

No trem de volta, Florença olhou o castelo pela última vez e jurou ver uma figura na janela acenando. No vidro, o reflexo mostrou que as sombras dela não se moviam.

À noite, choveu. Florença despertou sobressaltada: alguém murmurava seu nome. A vela acesa mostrou sombras dançando na parede, rodeando a cama onde Lia dormia.

 

 

Parte II — O Som das Sombras

 Lausanne, ordenada e fria, tentou acolhê-la. Mas Florença sentia-se deslocada, como se o castelo a tivesse atravessado.

O espelho do corredor embaçava sempre que ela passava. As janelas sussurravam. O sabor da comida mudara.
E à noite, passos. Sempre à mesma hora: 3h17.

Lia telefonava:
— Já conversou com teus novos amigos invisíveis?
Florença ria, mas o riso era de pedra. Matteo e Éric preferiam não comentar; conheciam aquele tom que anunciava presságio.

Com o tempo, as sombras começaram a sussurrar nomes: Rousseau, Kurt, Annelise.
No espelho, via o contorno de um véu. No café do Flon, jurou ver Kurt numa mesa. O garçom olhou-a estranho:
— Mademoiselle, essa mesa está vazia há horas.

O cappuccino tinha gosto de leite azedo. Abriu o caderno de anotações e escreveu com mão trêmula:

“As sombras não me seguem.
Eu é que ainda caminho dentro delas.”

As letras pareciam escritas por outra pessoa, num idioma de pedra e vento.

 

 

Parte III — O Chamado de Chillon

 As noites se repetiam. O mesmo sonho: o corredor estreito, o chão frio, vozes sussurrando nomes antigos.

Ao despertar, sempre 3h17.

Os amigos tentavam distraí-la — cinema na Cinémathèque, passeio até Annecy, o Cirque Knie.
Mas Florença olhava além deles.
— Quando entrei naquele lugar, algo me reconheceu — disse uma noite, olhando o vazio.

O vento mudou, vindo do norte, cheiro de lavanda misturada a enxofre.
No reflexo do ônibus, ela viu, por um instante, o castelo inteiro atrás de si.

Arrumou uma pequena mala, deixou uma carta:

“Não volto por vontade.
Volto porque algo em mim ficou preso em Chillon.
Se eu demorar, esperem o nascer do sol.
As sombras quase sempre se dissipam à luz — quase sempre.”

Na manhã seguinte, o guarda da estação viu uma mulher sozinha seguir pela trilha sob chuva.
Ninguém mais a viu.

Mas os moradores da vila juram ouvir, nos dias de neblina, uma voz suave entre as pedras:

“As sombras não me seguem…
eu ainda caminho dentro delas.”

 

Parte IV — O Retorno a Chillon

 O outono já mordia as bordas do lago quando Lia, Matteo e Éric voltaram.

— Se ela ficou, não é justo deixá-la sozinha — disse Lia, com a firmeza dos que têm medo.

O trem percorreu o mesmo trajeto. A vila estava muda; o sino, calado; o vento, parado. As janelas fechadas pareciam olhos cansados.
No portão, o aviso desaparecera. O fosso exalava um cheiro doce e podre.

— Parece que o castelo esperava — murmurou Éric.

Entraram. Cada passo produzia ecos que não lhes pertenciam. Sob a escada, o caderno de Florença — seco, intacto. Nas páginas, nomes, datas, despedidas em muitas caligrafias.
Na última, em francês recente:

“Je suis ici, mais autrement.”
(Estou aqui, mas de outra forma.)

Um som metálico vibrou na passagem. Uma luz trêmula.
Lia deu o primeiro passo; o ar se contraiu. As paredes pareciam respirar.
No fundo, viu o reflexo de si mesma misturado a uma sombra que sorria.

“Algumas portas, uma vez abertas, nunca mais se fecham.”

Quando voltou os olhos, Matteo e Éric haviam sumido.
O castelo estava silencioso — ou povoado demais.

Na manhã seguinte, um pescador jurou ver uma moça junto ao portão, com um caderno no peito.
O vento sussurrava um nome — Florença ou Lia.
E quem passa por Chillon, em domingos nublados, ainda ouve uma risada leve:

“Se você não voltar, foi um prazer ter te conhecido.”

O castelo, satisfeito, devolve o eco — como quem concorda.

 

 

Parte V — O Castelo de Dentro

 Não sei há quanto tempo estou aqui. Talvez minutos. Talvez séculos.

O tempo, neste lugar, não corre: se dobra.
Ele não passa por mim, passa em mim.

Sou corredor, sou parede, sou o próprio ar que vibra nas pedras. Quando entrei, o portão não se fechou para fora — fechou-se para dentro. E o dentro, agora, é tudo o que existe.

No início, pensei ouvir vozes. Mas eram apenas meus próprios ecos, vindos de tempos que não vivi e ainda assim me pertencem.
Cada sombra tem nome e lembrança: viajantes, poetas, amantes, curiosos.
Todos acharam que o castelo era um lugar.
Mas o castelo nunca foi um lugar.
É uma pergunta.
E quem entra precisa respondê-la com a alma.

Madame Rousseau anda pelos corredores, o véu balançando como respiração.
Kurt recita versos que ninguém mais entende, o sotaque arrastando a dor de outra guerra.
Annelise toca um piano que não existe; as notas flutuam no ar e caem, pequenas e translúcidas, como lágrimas de vidro.

Eles me olham com ternura, como se me esperassem há muito tempo. E talvez esperassem mesmo.
Aqui, todos reconhecem todos — somos feitos do mesmo pó, do mesmo silêncio.

Às vezes escuto passos. São deles, ou de quem acabou de chegar. Risadas, frases inacabadas, nomes ditos como preces.
Quando o vento sopra, ele vem de dentro de mim.
Tento gritar, mas o eco responde sempre igual:

“Je suis ici, mais autrement.”
(Estou aqui, mas de outra forma.)

Não há dor. Nem paz. Só uma vibração que sustenta a lembrança.
O castelo respira por nós — e nós respiramos por ele.

De vez em quando, sonho o lado de fora.
Vejo o lago Léman dormindo sob a lua, o trem riscando a colina, as luzes de Lausanne ao longe.
Vejo uma mulher parecida comigo, sentada num café, escrevendo num caderno.
Talvez seja eu tentando voltar.
Ou talvez seja o castelo sonhando comigo.

O que me ancora é o som da última risada deles, leve demais para caber na eternidade:

“Se você não voltar, foi um prazer ter te conhecido.”

Eu não voltei.
Mas o prazer foi meu.

 

 

Parte VI — O Outro Lado do Espelho

 Passaram-se anos. Décadas.

O castelo, agora, é ruína visitada por curiosos. O mato cresce entre as pedras.
O vitral rachado, coberto de musgo, ainda filtra a luz como se ela viesse de dentro.
Mas, em dias de neblina, Chillon respira — e quem se aproxima sente o frio do ar envelhecido.

Foi numa manhã assim que ele chegou: Marc, viajante, mochila nas costas, olhos claros demais para o céu encoberto.
Ouviu na vila que o castelo era mal-assombrado e riu. Queria apenas ver o pôr do sol refletido no lago.

Ao atravessar o portão, o vento parou.
O silêncio era tão espesso que parecia uma parede invisível.
Sob a escada, algo brilhou: um pedaço de espelho antigo, rachado, coberto de poeira.
Ele o pegou.
E viu o reflexo de uma mulher — cabelos escuros, olhar calmo, sorriso triste.

— Florença…? — murmurou, sem saber por quê.

Ela não respondeu. Apenas ergueu o rosto e apontou para o chão.
Ali, entre folhas secas e pó, estava um caderno.

Páginas amareladas, mas legíveis:

“As sombras não me seguem.
Eu ainda caminho dentro delas.”

Entre as folhas, uma pétala seca de lavanda e um bilhete:

“A casa é o corpo.
O corpo é o castelo.
E o castelo é o que sobra do amor.”

Quando ergueu os olhos, a imagem desaparecera.
Mas o vento voltou, sussurrando palavras em francês antigo, misturadas a risadas distantes:

“Si tu n’reviens pas… ce fut un plaisir de t’avoir connue…”
(Se você não voltar, foi um prazer ter te conhecido.)

Marc guardou o caderno. Ao sair, jurou ver quatro sombras na janela — uma delas acenando.
O sino da vila tocou.
Ele hesitou, entrou novamente.
O sol rompeu a neblina e atravessou o vitral rachado, iluminando o interior do castelo.
Marc sorriu, fechou os olhos, e seguiu adiante.

Dizem que, desde então, um perfume leve de lavanda paira em Chillon.
E quem encosta o ouvido nas pedras ouve uma voz suave:

“Eu nunca saí.
Apenas me tornei o outro lado do espelho.”

 

 

Parte VII — Madame Rousseau, a Mulher do Chapéu Preto

 Ela chegou ao castelo muito antes de todos, num século que já se dissolveu.

Dizia-se Rousseau, mas nunca contava o nome de batismo.
Vestia-se de preto, um véu rendado escondendo o rosto, e trazia luvas que pareciam costuradas ao tempo.

Madame Rousseau falava baixo, e cada palavra parecia acender ecos nas paredes.
Falava de Paris, de salões onde dançava sozinha, de um marido que nunca voltou da guerra, de um espelho que se recusava a refletir seu rosto.
Ao andar, o véu tremia, como se respirasse por ela.

Marc a viu de relance, certa tarde, atravessando o salão principal.
— A senhora… mora aqui? — perguntou, sem coragem de chegar perto.
— Eu moro onde o tempo me esqueceu — respondeu ela, sorrindo por trás do tecido.
E desapareceu, deixando o ar perfumado de lavanda antiga e pó de arroz.

Dizem que, em noites de vento, o castelo inclina levemente as janelas para que ela possa passar.

 

Parte VIII — Kurt, o que Recita para Ninguém

 Kurt não tinha idade. Tinha inverno.

Olhos acinzentados, uma cicatriz quase invisível no queixo e um sotaque que carregava neve.
Recitava versos em alemão para as paredes, em voz tão baixa que pareciam orações de pedra.

“Ich erinnere mich an dich…”
(Eu me lembro de você.)

Disse que veio ao castelo fugindo de outra ruína — a das trincheiras.
Nunca contou de qual guerra.
O tempo o recebeu de braços abertos e nunca o devolveu.

Às vezes, à hora em que o vento sopra do lago, Kurt senta-se ao piano invisível de Annelise e toca melodias quebradas.
Quando termina, guarda no bolso um pedaço de papel amassado — o fragmento de um poema sem autor.
E sorri, como quem ainda acredita que as palavras podem resgatar os mortos.

 

 

Parte IX — Annelise, a que Desliza

 Annelise parece feita de névoa.

Desliza pelos corredores sem fazer ruído.
Dizem que nasceu em Lucerna, que amava dançar, e que um dia desapareceu durante um baile, deixando apenas o som dos passos ecoando no salão.
Desde então, o castelo a abriga.

Seus olhos são claros e distantes, como os de quem escuta uma música que mais ninguém ouve.
Às vezes, risca o chão com as unhas, desenhando pautas invisíveis, e sussurra:

“Je suis ici, mais autrement.”
(Estou aqui, mas de outra forma.)

Marc viu seus traços numa parede: linhas paralelas e nomes de mulheres escritos em letra delicada.
Quando passou a mão, as palavras desapareceram.
Mas o frio ficou.

 

Parte X — Giulia, a Fotografia que Sangra Luz

 Giulia e Enzo eram estudantes italianos. Vieram de Milão para fotografar o lago.

Giulia trazia uma câmera antiga, presente do avô.
Subiram a colina rindo, sem saber que certos lugares não gostam de ser lembrados.

No pátio do castelo, ela tirou uma foto do portão.
Na tela, apareceu algo que não estava ali: cinco figuras ao fundo, sombras longas, e uma sexta se formando.
— Estranho… — disse. — Você estava de chapéu?
Enzo negou.

Giulia riu nervosa, mas o riso soou oco.
À noite, revisou as imagens e notou uma luz escorrendo na borda — uma mancha dourada, como sangue de sol.
No dia seguinte, voltou sozinha.
Quando a luz do entardecer atravessou o vitral, o clarão tocou seu rosto e ela fechou os olhos.
A câmera caiu no chão.
A foto capturou um último instante: o véu de Madame Rousseau flutuando atrás dela.

Desde então, quem fotografa o castelo em dias nublados nota uma faixa dourada atravessando a imagem — como se o tempo ainda sangrasse luz.

 

 Parte XI — Enzo, o que Não Estava de Chapéu

 Enzo voltou à vila no dia seguinte.

Levava o sorriso cansado dos que tentam desmentir o medo.
— Eu estava de chapéu? — repetia. — Não, claro que não.

Mas a sombra da foto insistia em usá-lo.

Foi até o castelo, sozinho.
O vento o recebeu frio e cortante.
Caminhou até o fosso, chamou o nome de Giulia.
Nada.
No chão, uma pétala de lavanda. Pegou-a, colocou no bolso, e nesse instante o sino da vila tocou — uma badalada só.

Quando abriu o caderno para anotar o som, viu uma linha surgindo sozinha, desenhando um pequeno chapéu.
Enzo sorriu.
E compreendeu que o castelo não queria respostas — apenas que alguém o olhasse com atenção.

 

Epílogo — A Janela Que Respira

 Há quem diga que o castelo dorme.

Mas ele apenas respira — devagar, entre o silêncio e o tempo.
Cada pedra guarda uma memória, cada sombra, um nome esquecido, cada fenda, um resto de voz.

Numa manhã próxima ao inverno, Marc voltou.
Trouxe o mesmo caderno, agora limpo, as páginas firmes, como se o tempo o tivesse reescrito.
Sentou-se diante das ruínas.
O vento soprou.
O vitral rachado, o mesmo que um dia iluminou Florença, refletiu a luz em fragmentos dourados.

Na superfície quebrada, ele viu o reflexo de uma mulher sorrindo.
Atrás dela, três sombras riam baixo.
À esquerda, uma jovem segurava uma câmera; à direita, um rapaz sem chapéu.
Todos pareciam olhar o horizonte, esperando outro domingo sombrio.

Marc fechou os olhos e disse, em voz quase de prece:

“Eu também tive prazer em te conhecer.”

O vento cessou.
O castelo pareceu grato.
E o caderno, aberto em seu colo, escreveu sozinho, com letra que não era a dele:

“Agora o lado de dentro e o lado de fora respiram o mesmo ar.”

Desde então, quem passa por Chillon ao cair da tarde jura ver seis silhuetas na janela — quatro antigas, duas recentes — e ouvir, muito ao longe, uma risada leve repetindo:

“Se você não voltar, foi um prazer ter te conhecido.”

O castelo, satisfeito, volta a dormir.
Mas seu sono nunca é profundo.
Ele apenas espera — o próximo visitante curioso, a próxima alma com pressa de fotografar o invisível.

E assim continua a respirar,
entre o mundo dos que voltam e o dos que ficam.

 Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora