A Casa Torta Dos Meninos Pretos
A casa parecia respirar.
Quando o vento batia, ela se curvava um pouco, como quem escuta um segredo
antigo.
As janelas, tortas, olhavam o morro com certa melancolia, e o telhado, cansado,
guardava o barulho dos passos que um dia dançaram ali.
Diziam que a madeira tinha memória — e talvez fosse verdade, porque toda vez
que alguém passava em silêncio, a casa respondia com um estalo, um gemido, um
som que parecia dizer:
“Eu ainda estou aqui.”
Foi lá que Marta de Luz
criou seus meninos pretos — Bento, Zeca e Tiê — três nomes que nasceram da
poeira, da fome e do tambor.
Ela os encontrou encolhidos atrás do tronco da mangueira velha, num dia em que
o rio secou e o sol parecia castigo.
— Venham comigo — disse ela —, que o mundo não sabe cuidar dos que não têm
sobrenome.
A casa, então, se inclinou
um pouco mais, abrindo espaço para eles.
Ali, entre paredes que
rangiam e um quintal cheio de mamoeiros, Marta lhes ensinou o que o livro não
traz: o valor do silêncio, a coragem de existir e o poder do som.
À noite, sentava-se na varanda com os três ao redor e contava histórias sobre
reis de pele escura, sobre o tempo em que o tambor falava em segredo e era
proibido ouvir.
— A gente vem do som — dizia. — O som é a nossa lembrança. Quando o mundo nos
cala, o tambor fala por nós.
Os meninos cresciam entre o
cheiro de sabão e o som das águas da bica.
Bento, o mais velho, vivia batucando nos baldes de alumínio.
Zeca, o do meio, pintava as tábuas da casa com carvão, fazendo nascer pássaros
e estrelas onde antes só havia rachaduras.
Tiê, o menor, inventava palavras novas, escrevendo versos que o vento levava e
trazia de volta.
O tempo foi passando como
passa nas casas vivas — lento e cheio de ecos.
Quando Marta partiu, numa manhã silenciosa de agosto, o vilarejo inteiro achou
que a casa desabaria.
Mas ela não caiu.
Apenas entortou um pouco mais, como quem se dobra em respeito.
Os três ficaram.
Bento transformou o tambor em reza.
Zeca fez das cores sua voz.
Tiê escrevia nas paredes poemas que ninguém entendia, mas todos sentiam.
Com o passar dos anos,
outros meninos começaram a chegar — vindos das ruas, dos becos, das esquinas
que esquecem nomes.
Ali, ninguém perguntava de onde vinham.
Só se dizia:
— Aqui é casa.
E a casa os reconhecia.
Nos domingos, o som dos
tambores ecoava pelo vale.
As mulheres subiam o morro com travessas de comida, panos coloridos, flores e
risos.
Chamavam de festa, mas quem olhasse com atenção saberia: era mais que festa,
era memória em movimento.
Cada batida do tambor era um chamado.
Cada passo dançado, um pedaço da história voltando pra casa.
Um dia um repórter da
cidade subiu o morro.
Queria escrever sobre “a casa torta e os meninos pretos”.
Anotava tudo num caderninho sem alma.
Perguntou a Bento, já homem feito:
— Por que nunca endireitam essa casa?
Bento sorriu, um sorriso de canto, e respondeu:
— Porque ela é como a gente.
— Como assim? — insistiu o repórter.
— Torta, mas inteira. Ferida, mas de pé.
O homem anotou e foi embora
sem entender nada.
A casa continuou ali.
Mais torta, mais viva, mais cheia de sons.
Às vezes, quando o sol se põe e o vento sopra do lado do rio, quem passa jura
ouvir tambores e risadas ecoando do alto do morro.
E dizem que se alguém bater à porta, uma voz suave ainda responde:
— Entre. Aqui, ninguém é resto.
Hoje, a Casa Torta dos
Meninos Pretos segue firme — inclinada para o lado do coração.
Não é museu, nem abrigo, nem lenda.
É lembrança pulsando madeira.
É o que o tempo não conseguiu apagar.
E quando o vento sopra,
levando poeira e silêncio, a casa respira outra vez e sussurra:
- Enquanto houver chão que nos reconheça, não há esquecimento que nos enterre.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário