Quando o Vento Voltar

O vento chegava sempre antes das lembranças.

Soprava pelas frestas da casa, erguendo cortinas, acordando papéis esquecidos, e trazia com ele um rumor antigo — um som que Elisa reconhecia sem precisar entender.
Era o mesmo som que acompanhara Miguel nos últimos dias, quando já não havia mais palavras, apenas o ar entre eles.

Desde então, ela não perguntava “por quê?”, mas “quando?”.
Quando voltaria a senti-lo.
Quando o silêncio deixaria de doer.
Quando o vento traria alguma resposta.

Naquela manhã de setembro, a praça estava coberta de folhas.
Elisa caminhava devagar, sem rumo, como quem busca o próprio tempo.
Sentou-se no banco de sempre — aquele onde Miguel lia o jornal dobrado em quatro, enquanto ela fingia desenhar no caderno.
Era ali que o mundo parecia caber dentro de uma rotina simples e feliz.

Agora, só o vento lhe fazia companhia.
Uma folha desprendeu-se da árvore e pousou sobre o colo dela.
Não trazia nenhuma mensagem, apenas o som seco de algo que se despede.
Mas Elisa sentiu um arrepio — não de frio, mas de reconhecimento.
Guardou a folha no bolso do casaco. Era o tipo de coisa que Miguel faria.

Voltou para casa caminhando devagar.
A mesma rua, os mesmos passos, mas o mundo parecia outro.
O vento brincava com o lenço dela, e por um instante, teve a impressão de ouvir o riso dele, breve, rouco, familiar.
Sorriu sem saber por quê.

Nos dias seguintes, começou a notar sinais que antes ignorava.
O livro que ele mais gostava — Os Pássaros Também Amam o Inverno — caía da estante, sempre aberto na mesma página.
O abajur piscava nas madrugadas frias.
O rádio, por vezes, ligava sozinho, tocando a mesma canção do último jantar.
Nada sobrenatural — apenas pequenas insistências do acaso, que o coração dela teimava em chamar de Miguel.

Às vezes, falava com ele, baixinho:
— Miguel, como eu vou te encontrar?

E sempre que dizia isso, uma brisa leve passava por seu rosto — mesmo dentro de casa, mesmo em dias sem vento.
Era como se o ar se movesse para responder.

Lembrou-se de uma tarde no lago, antes da doença.
O sol refletia nas águas como um espelho partido.
Miguel tirou o chapéu, colocou-o no colo e disse:
— Quando eu me for, não procura por mim no chão. Eu nunca gostei de lugares parados.
— E onde devo te procurar, então? — perguntou ela, meio rindo.
Ele pensou um pouco e respondeu:
— No vento. Eu sempre volto com ele.

Naquela época, ela riu. Hoje, entendia.
Miguel não estava mais onde o corpo dorme, mas onde o ar se move.
Era o intervalo entre o som e o silêncio, o leve desarranjo que precede o outono, o sussurro que atravessa sem pedir licença.
Não presença nem ausência — apenas movimento.

Numa noite silenciosa, sonhou com ele.
Miguel estava de pé, perto do lago, o mesmo lago de tantas tardes.
Disse apenas:
— Não me busques no amanhã. Eu sou o vento de hoje.

Ao acordar, Elisa abriu as janelas.
O vento atravessou a casa, espalhou papéis, moveu lembranças.
Ela ficou parada no meio da sala, olhos fechados, sentindo o ar tocar-lhe o rosto como um afago antigo.

Não havia resposta, nem promessa.
Mas havia algo vivo, que a atravessava sem doer.

O vento seguiu, levando o cheiro do café e o nome dele consigo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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