Suspirar é Acomodar a Alma
Hoje percebi que tenho suspirado mais.
Não é tristeza — é como se algo dentro de mim precisasse se ajeitar, encontrar um canto onde pudesse respirar sem pressa.
Um suspiro é isso: o corpo abrindo espaço para a alma se recompor.
Há quem diga que alma e espírito são a mesma coisa. Talvez sejam, talvez não.
Aqui em Lausanne, entre o frio e o silêncio, tenho pensado que o espírito é o sopro que vem de longe — uma centelha que nos atravessa e nos mantém de pé —, enquanto a alma é o que se forma dentro: o que sente, o que se lembra, o que se fere e se refaz.
O espírito é o vento; a alma, a vela que tenta se orientar por ele.
Às vezes a alma cansa.
Carrega lembranças demais, ausências demais, perguntas que não se calam.
É então que vem o suspiro — esse gesto quase invisível que reorganiza o caos por dentro.
O suspiro não resolve nada, mas abre uma fresta, um intervalo onde o ar entra e a vida recomeça, mesmo que por segundos.
Talvez seja por isso que, quando suspiro, o tempo parece amansar.
Os pensamentos se dispersam como folhas no vento que sobe das colinas.
O lago ali embaixo reflete um pedaço de céu, e eu penso: talvez o espírito esteja nesse reflexo, e a alma — em mim — tentando entender o que o espelho mostra.
O corpo respira para viver.
Mas é o suspiro que lembra à alma que ainda há caminho.
E eu sigo — suspirando, escrevendo, recompondo o espaço que a vida, às vezes, estreita demais.
Até que outro suspiro venha, e me acomode de novo — um pouco mais leve, um pouco mais longe, talvez um pouco mais perto do que ainda não sei nomear.
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