Ventos Que Invento

Pelo certo, e pelo tanto já vivido, eu deveria me acomodar na brisa mansa que me envolve.

Deveria aceitar o sossego como prêmio, o silêncio como descanso, e a calmaria como destino natural de quem já atravessou tantas tempestades.
Mas não.

Mesmo com a saudade rasgando o corpo e a alma, mesmo com as feridas ainda abertas, latejando em silêncio, há algo em mim que se recusa a parar.
Prefiro inventar ventos novos.
Quase ventanias.
Ventos que desarrumam o que parecia em ordem, que me arrancam do lugar onde o costume quer me prender.

São ventos que pedem força — e força eu busco no que ainda me resta: nas mitocôndrias cansadas, nessas pequenas usinas que moram em mim e insistem em acender luz mesmo quando tudo parece escuro.
Elas me sustentam, mesmo exaustas.
Elas me empurram, mesmo quando o corpo pede trégua.

Invento ventos para continuar me costurando.
Ponto a ponto, remendo o que rasgou, ajusto o que sobrou.
Cada novo sopro é uma chance de renascer um pouco, ainda que com cicatrizes, ainda que com o tecido da alma já gasto.
Mas é isso — há beleza também no que foi remendado com amor.

Esses ventos que invento confundem as minhas forças, mexem nas minhas entranhas, embaralham minhas certezas.
Mas é neles que me encontro, é neles que volto a sentir que existo.
A calmaria me cala.
O vento me fala.

Mesmo cansada, rasgada, amarrotada — eu sigo.
Porque ainda prefiro os ventos às brisas paradas.
Prefiro o que me move ao que me acomoda.
Prefiro o risco do vendaval à falsa paz da quietude.

No fim, talvez eu mesma seja feita de vento.
Invento ventos porque sou inventada por eles — pedaço de ar, de força, de instinto, de teimosia.
E enquanto o vento soprar em mim, ainda que fraco, ainda que trêmulo, sei que continuo viva.

O resto...
O resto o vento leva.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora