" Deixa eu Querer Voar"

Porque às vezes o chão é pesado demais, e o corpo se cansa de sustentar o próprio peso. Há dias em que tudo o que se quer é altura — um pouco de espaço entre o coração e o mundo.

“Deixa eu querer voar.”
Não pra fugir, mas pra alcançar o que me dói. As dores, quando vistas de cima, perdem a arrogância. Lá do alto, elas são apenas sombras pequenas em movimento, lembranças passageiras que o vento dissolve com paciência.

Talvez eu voe torto, talvez nem saia do lugar. Mas o simples gesto de abrir as asas já muda alguma coisa em mim — é como se o ar me reconhecesse e me devolvesse um pouco do que esqueci: o impulso.

Há tanto peso nas coisas simples — nas palavras ditas e nas que se engasgam, nos silêncios, nas promessas que ficaram pela metade. Mesmo assim, dentro de mim, algo insiste em se erguer. É um sopro, um tremor leve, um quase — mas é o bastante pra começar.

Então eu subo.
Não sei se o voo é real ou lembrança. Talvez seja só o pensamento que, cansado de rodar em círculos, encontra um atalho pelo céu. Lá de cima, vejo as casas pequenas, as pessoas apressadas, os dias se repetindo como relógios desobedientes. Tudo parece distante e, por isso mesmo, mais suportável.

O vento conversa comigo.
Traz vozes antigas, rostos que o tempo apagou, risadas que ainda ecoam em algum canto da memória. Eu me deixo levar — não pra esquecer, mas pra entender. Porque às vezes é preciso ver o que machuca de outro ângulo pra poder seguir respirando.

“Deixa eu querer voar,”
mesmo que o céu não me queira,
mesmo que o vento me negue pouso.

E se eu cair — que seja sobre as nuvens inventadas da minha própria coragem.
Se eu pousar — que seja em mim mesma, quando o corpo e o pensamento, enfim, se reconhecerem.

Mas não agora.
Agora, só me deixa querer.
O querer já é o voo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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