Quando o Sol se Levanta Sobre o Léman

Todas as manhãs, ao despertar, ela pensava: “mais uma noite passei sem você.”

Lá fora, o sol, pontual como sempre, se erguia sobre o céu de Lausanne, banhando de ouro o espelho tranquilo do lago. O Léman respirava junto com a cidade — um sopro lento, quase humano — e ela, imóvel diante da janela, deixava que a luz tocasse o rosto ainda úmido de lembranças.

A vida seguia com a precisão habitual: o ruído metálico dos bondes, o tilintar das bicicletas nas ladeiras, o murmúrio dos cafés que se abriam. Mas dentro dela o tempo não obedecia a relógios. Andava em círculos, feito quem caminha num quarto pequeno procurando uma saída que não existe.

O cenário era o mesmo — o lago, o sol, as montanhas ao fundo — mas havia um vazio que nada preenchia. A cadeira ao lado continuava posta, o café era servido em duas xícaras, como se o gesto pudesse, por si só, restabelecer uma presença.

Falava sozinha às vezes. Um “bom dia” murmurava o suficiente para se ouvir viva. Noutras, o silêncio bastava — aquele tipo de silêncio que não pesa, mas ocupa espaço.

Sabia, com a clareza que o tempo impõe, que a morte não é um acontecimento distante: é uma presença que se instala. Não há como vencê-la, apenas aprender a viver ao lado dela. Era isso o que fazia todos os dias — reaprender a viver.

Enquanto o café esfriava, lembrava das conversas que se perdiam na madrugada, das piadas que só faziam sentido entre dois. Não havia tristeza em lembrar; havia uma espécie de ternura cansada, um reconhecimento de que o tempo vivido fora inteiro, sem economia de gestos.

As pessoas diziam que ela era forte. Ela sabia que não era. Apenas seguia, porque seguir é o que resta quando tudo o mais já foi.

De vez em quando, ao olhar o reflexo do sol nas águas, tinha a impressão de que ele estava ali — não como presença, mas como vestígio. Um rastro leve, invisível, como o calor que permanece mesmo depois que o fogo se apaga.

E então ela agradecia.
Não por consolo, mas por memória.
Por ter existido um antes que valesse o agora.

O dia começava outra vez.
O sol subia sobre o Léman, e ela, sem pressa, se levantava também — repetindo o gesto simples de continuar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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