" Made in Haven" - Feito no Céu

 Dizem que, quando duas faíscas se reconhecem, o universo prende a respiração por um instante.

Foi o que aconteceu quando os olhos deles se cruzaram — não por acaso, mas como quem se reencontra num desvio secreto do tempo.

Nenhum dos dois procurava nada.
A tarde era comum, o ar pesado, o dia sem história.
E, no entanto, algo se deslocou, silencioso, quase imperceptível.
O instante parecia carregado demais para caber dentro do mundo.

Ela parou primeiro.
Não sabia por quê.
Apenas sentiu o corpo suspenso entre o antes e o depois, como se tivesse ouvido um chamado sem som.

Ele hesitou.
Por um segundo, pensou ter sonhado.
Mas o olhar dela o atravessou com a delicadeza de quem acende uma memória esquecida.
Era uma vertigem conhecida, um eco distante — o tipo de lembrança que não se sabe se é lembrança ou profecia.

Ficaram ali, imóveis, sem sorriso, sem palavras.
Havia algo de antigo naquele silêncio, algo que escapava do real.
Talvez uma história que nunca terminou.
Talvez uma promessa que nunca começou.

O vento passou entre eles, lento demais para ser vento.
E o som do mundo — passos, motores, vozes — se dissolveu, como se o tempo se curvasse para dar passagem a algo maior.

Nenhum gesto os aproximou, mas também não os afastou.
Foi apenas um instante, e ainda assim, ambos souberam que estavam dentro de algo que não cabia em explicações humanas.

Depois seguiram.
Como se nada tivesse acontecido, embora tudo tivesse.
Ele levou consigo o peso leve de um nome que não lembrava.
Ela, a certeza de ter sido olhada de dentro do próprio destino.

Naquela noite, sonharam o mesmo sonho:
um corredor branco, uma luz pulsando no fundo, passos que não se encontravam.
Acordaram com o mesmo sobressalto, em casas diferentes, cidades diferentes, talvez até mundos diferentes — e o mesmo arrepio percorreu o ar, como um fio de energia invisível.

Durante dias, pensaram um no outro sem saber por quê.
O pensamento vinha como um fragmento de música, uma linha esquecida de uma canção antiga.
“Made in Heaven”, talvez fosse o nome.

E se nunca mais se viram, pouco importa.
Alguns encontros não foram feitos para durar — foram feitos para lembrar ao universo que, um dia, duas faíscas se tocaram e fez o céu inteiro brilhar um pouco mais.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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