Vou Driblando a Tristeza

Vou driblando a tristeza como quem aprende a dançar com um par que não escolheu, mas que a vida impôs.

Ela chega sem aviso, veste-se de silêncio e se senta comigo à mesa, como se fosse parte da rotina. Às vezes aceita o café, às vezes só observa, esperando que eu me distraia para se fazer notar.

Quando começo a pensar no vazio que tua ausência deixou, o peito se contrai, e o tempo parece encolher.
Mas então eu respiro fundo e deixo que a lembrança faça o seu trabalho de consolo: penso na vida que tivemos, na família que formamos, nos filhos que vieram e nos netos que agora carregam, no olhar, um pouco de ti.
Penso na casa — nossa casa — que ainda guarda o som das tuas gargalhadas, o ranger da porta quando chegavas, o modo como a luz da tarde se deitava sobre o sofá onde tantas vezes adormeceste.

E penso na nossa cama, que foi refúgio, abrigo, palco e testemunha. Hoje ela me acolhe sozinha, mas ainda há um lado que permanece teu, como se o lençol tivesse aprendido o contorno da tua ausência.

Assim, dia após dia, vou driblando a tristeza.
Não nego sua presença — seria inútil. Apenas a ensino a se comportar. Mostro-lhe que há um espaço certo para ela: nem tão grande que me sufoque, nem tão pequeno que a negue.
Coloco-a no seu devido lugar, como quem arruma um quadro torto na parede: com cuidado, com respeito, com a delicadeza de quem já entendeu que algumas dores não se curam — apenas se acomodam.

Com o tempo, percebi que a tristeza tem seu ofício.
Ela nos afina o olhar. Nos obriga a ver com mais nitidez o que antes era costume.
Foi ela que me ensinou a distinguir o que é felicidade de verdade — não a euforia passageira, mas aquela paz que se instala em pequenas coisas: o riso dos netos, o sol entrando pela janela, o cheiro do pão que ainda preparo como tu gostavas.
A tristeza, paradoxalmente, é a lente que me faz enxergar o brilho do que ficou.

E é por isso que sigo.
Porque a dor da tua ausência não apaga a beleza do que vivemos — apenas me faz percebê-la com mais gratidão.
E se hoje driblo a tristeza, é porque aprendi que ela não é inimiga da felicidade.
São irmãs que caminham juntas — uma me mostra a falta, a outra, o valor do que ainda tenho.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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