"Farinha do Mesmo Saco "

Visitando a casa onde viveu Chaplin, em Vevey, e a de Einstein, em Berna — ambas na Suíça — me peguei pensando no quanto esses dois homens, tão diferentes e ao mesmo tempo tão geniais, me dizem algo essencial:

quando alguém se acha superior aos outros, é porque ainda não entendeu a própria pequenez.

Chaplin, com seu humor triste e olhar terno sobre o mundo.
Einstein, com suas fórmulas e teorias que tentaram decifrar o tempo e o espaço.
Dois gigantes.
E, no entanto, tão humanos quanto qualquer um de nós.

Somos grãos de areia perdidos na imensidão dessa praia chamada universo.
Iguais na anatomia, frágeis no destino.
O que o ser humano faz para tentar se diferenciar — seja acumulando dinheiro, diplomas, status ou apenas inflando o próprio ego — é, muitas vezes, um esforço vão para disfarçar o medo de ser comum.

Mas quando a gente se dá conta de que somos todos “farinha do mesmo saco”, alguma coisa muda por dentro.
A vida passa a nos acolher melhor, o olhar amacia, o passo desacelera.
Percebe-se que não é preciso subir a escada da vida até o topo para compreender o essencial.
Basta pensar.
E pensar — esse dom que nos foi dado — talvez seja o primeiro degrau da verdadeira sabedoria.

O curioso é que muitos só chegam a essa compreensão quando envelhecem um pouco mais.
Talvez porque o tempo, com sua paciência implacável, vá mostrando que a vida também termina.
E, diante dessa certeza, alguns que viveram uma existência inteira acreditando ser maiores, mais inteligentes ou mais importantes que os outros, começam a se despir da arrogância — tentam se redimir, pedir perdão, abraçar o que antes desprezavam.

Nem sempre conseguem.
Mas o simples gesto de olhar para o próprio reflexo e perceber o tamanho real que se ocupa no mundo já é um começo.
É como se, ao se reconhecer pequeno, o ser humano finalmente encontrasse grandeza.

E, no fundo, talvez seja disso que se trata viver: descobrir, tarde ou cedo, que somos todos feitos da mesma matéria — e que só o pensamento, quando se abre para a humildade, nos eleva.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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