O Tempo Entre Nós
Não era o vento, nem o silêncio — era o tempo que separava os dois.
Um tempo morno, feito de lembranças que ainda respiravam entre as frestas da
casa.
Ela acordava sempre um
pouco antes das sete.
O corpo, teimoso, seguia a rotina antiga: café forte, duas xícaras sobre a
mesa, uma cheia, outra esperando.
Havia dias em que quase dizia o nome dele — mas o som morria no ar, como se a
própria voz respeitasse o vazio.
As cartas que não enviou se
empilhavam dentro de uma caixa de sapatos.
Em cada uma, o mesmo começo:
“Não sei se ainda te
escrevo do mesmo tempo.”
Ela o imaginava em outra
cidade, outro relógio, talvez outro amor.
Mas sempre o imaginava.
Havia nisso uma fidelidade estranha — como se o pensamento fosse o último fio
que os mantinha ligados.
Nos fins de tarde, o
reflexo do sol entrava pela janela e riscava o chão em faixas douradas.
Ela chamava aquele instante de “entretempo”.
Era ali, entre o que já escurecia e o que ainda brilhava, que sentia a presença
dele.
Certo dia, encontrou um
casaco esquecido no fundo do armário.
Dobrou-o devagar, como quem acaricia uma ausência.
O tecido ainda guardava um cheiro leve, indefinido — talvez perfume, talvez
lembrança.
À noite, antes de dormir,
ela olhava para o relógio da estante.
Os ponteiros pareciam flutuar, indecisos — nem no ontem, nem no agora.
E por um instante breve, quase imperceptível, ela teve a impressão de que o
tempo parava.
Talvez fosse apenas o
coração.
Ou o tempo entre os dois — respirando.
Silvia Marchiori Buss
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