Quando o Tempo Parou de me Ouvir

 Tentei falar com o tempo.

No início, ele respondia — com o bater leve das cortinas, o ranger do portão, o relógio que atrasava de propósito, como quem faz charme antes de partir.
Mas um dia, ele se calou.

Não sei ao certo quando isso começou. Talvez no mesmo instante em que o café esfriou e eu não percebi. Ou quando teu casaco ficou esquecido na cadeira e o vento, generoso, soprou teu cheiro de volta pra mim.

De repente, as horas deixaram de me obedecer.
O vapor do café não subia, apenas pairava.
O relógio da parede parou entre o sete e o oito, como se tivesse esquecido o caminho.
O vento — sempre ele — repousou nas árvores, e até os pássaros ficaram suspensos, presos na respiração do instante.

Foi quando percebi: o tempo tinha parado.
Não por falha, mas por cansaço.

Talvez estivesse exausto de nos ver correr sem direção, de medir amores que não resistem a um inverno, de contar dias que não cabem mais na pele.
Talvez tenha parado por piedade — para que eu, enfim, te encontrasse onde te perdi.

Saí à rua.
Tudo era imóvel. As pessoas congeladas nos gestos, as sombras presas aos pés.
O mundo, pela primeira vez, cabia inteiro num só segundo.

Voltei para casa.
Abri a porta e te vi — ali, onde sempre estiveste: deitado, sereno, imóvel.
Não sei se era lembrança ou milagre.
Aproximei-me, toquei teu rosto. Tinha a temperatura exata de uma despedida.

O tempo, ali, respirava entre nós.
O ponteiro invisível se movia, mas só dentro de mim.
Cada batida do meu coração parecia pedir desculpas pelo que não soube viver.

Então compreendi:
não era o tempo que havia parado.
Era eu.

Eu que fiquei presa na dobra da ausência.
Eu que recusei o depois e fiz morada no intervalo entre o antes e o nunca mais.
O tempo seguiu — apenas não quis me levar junto.

Sentei-me ao teu lado e deixei que o silêncio dissesse o que eu já não sabia traduzir.
Do lado de fora, o mundo talvez tivesse voltado a girar.
Mas dentro da casa, tudo permanecia suspenso — o ar, o cheiro, a lembrança.

Quando finalmente fechei os olhos, não desejei voltar.
O tempo, lá fora, talvez me chamasse.
Mas aqui dentro, no centro exato da pausa, eu o ouvi respirar de novo.

E dessa vez, foi ele quem falou primeiro.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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