A Alma Pede Licença
A alma, cansada, sentou-se à beira do tempo.
Não era ainda o fim, mas também já não era o começo.
Estava ali — entre o que partiu e o que restou.
Fazia tanto tempo que doía,
que a dor se tornara sua segunda pele. Uma roupa que vestia todos os dias,
mesmo quando tentava trocá-la por sorrisos emprestados ou por alguma distração
que a vida ainda teimava em oferecer. A dor do amor perdido já não gritava;
sussurrava em tom grave, lembrando-a de que amar tanto assim tem sempre um
preço.
Ela já não sabia mais o que
era viver sem dor. Tudo parecia ter a marca dele — o travesseiro, o vento, o
café que esfriava devagar. Era como se o mundo inteiro houvesse aprendido a
conjugar o verbo “sentir falta”.
Mas, naquela manhã em que o
sol demorou a nascer, algo dentro dela fez um gesto tímido.
A alma, exausta, se aproximou da dor e, com uma humildade antiga, pediu
licença.
— Eu sei que vieste por
amor — disse. — Sei que me guardaste nos teus braços enquanto tudo desabava.
Foste abrigo quando ele partiu. Mas agora preciso caminhar um pouco sozinha.
A dor, acostumada a ser
rainha, permaneceu em silêncio. Não chorou, não se ofendeu. Apenas a olhou com
a gravidade de quem sabe que cedo ou tarde todas as almas precisam levantar-se
do luto e seguir.
E então a alma continuou:
— Não é que eu não te queira mais. É que preciso aprender a viver sem ti
grudada em mim. Prometo lembrar o que fomos, mas sem me deixar morrer junto.
Nesse instante, o tempo
parou de doer.
O vento soprou de leve, e as lembranças, antes pesadas, se tornaram leves como
véus.
Ela percebeu que a dor não se vai — apenas muda de lugar. Passa a morar em
cantos discretos da memória, onde se pode visitá-la sem se perder.
E a alma, enfim, se ergueu.
Com passos ainda incertos, caminhou entre as ruínas do que foi e o respiro do
que viria.
Não era felicidade, não era paz — era apenas movimento.
E isso bastava.
A dor, lá atrás, sorriu
como quem compreende o seu papel na eternidade.
E a alma, liberta por um instante, sussurrou:
— Obrigada por ter ficado.
Agora, com tua licença, eu vou continuar.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário